Iande - Arte com Historia

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Boletim de Histórias - outubro/2005

 

Índice

1. Introdução
2. Brincadeiras Indígenas
3. O dia em que o céu caiu (índios Gavião-Ikolen)
4. Arte feita por crianças
5. Atualizações

 

Introdução

Em abril de 2005, organizou-se uma grande exposição sobre cultura indígena na cidade de Jundiaí, em São Paulo. Uma família de índios do povo Xavante trabalhou no local, guiando e conversando com os visitantes.

O público era formado por pessoas com pouco, ou nenhum contato com o mundo indígena. O que mais eles olhavam com surpresa - não eram as fotos, vídeos ou artesanato expostos - era uma menina Xavante de sete anos: Clarinha, filha de um casal que trabalhava na exposição.

Clarinha, com seu cabelo e sobrancelhas cortados à maneira tradicional dos Xavante, seus olhos amendoados e sempre portando algum adorno indígena; tomava a atenção das pessoas. Muitos paravam estáticos à frente dela. Uma situação que fez a mãe de Clarinha comentar: "As pessoas acham que índio dá em árvore, que já nascemos adultos... Não conseguem imaginar que já fomos crianças."

Esse boletim traz algumas histórias sobre crianças. E defende que não há nada melhor que a imagem de uma criança para se quebrar o preconceito de alguém contra populações indígenas.

 

Brincadeiras Indígenas
(esse texto é baseado no artigo: "Brincadeira de Criança - Como os Pequenos Índios se divertem" ; escrito por Karine Bastos e publicado na revista Brasil Indígena de set-out/2001)

A infância é uma fase de sonhos e faz-de-conta para as crianças - sejam elas indígenas, da cidade, do interior... do mundo inteiro.

Mas a infância do índio tem algumas diferenças em relação - principalmente - à das crianças das cidades. A primeira delas é o cenário onde as brincadeiras se desenvolvem: o quintal da aldeia é a mata. Os indiozinhos sobem em árvores, tomam banho de rio, correm e se escondem no mato, observam e interagem com várias espécies de animais. Isso tudo é inacessível às crianças da cidade.

Outra grande diferença é que o núcleo principal da diversão é a própria criança e não o brinquedo. Muitos já viram alguns garotos da cidade emburrados porquê não podem jogar videogame, ou aborrecidos porquê acabou a pilha de algum brinquedo e não sabem o que fazer. As brincadeiras das crianças indígenas não dependem de um objeto em específico, mas sim da interação entre as várias crianças. Estão mais próximas às brincadeiras que os adultos das cidades lembram com nostalgia - esconde-esconde, pegador, casinha, polícia e ladrão, passa-anel - e lamentam que sejam cada vez menos praticadas no meio urbano hoje em dia.

Cada etnia indígena tem suas brincadeiras próprias. A seguir estão alguns exemplos:

1. No Parque do Xingu no Mato Grosso, os pequenos índios Mehinaku brincam de "onça" (a que chamam de Yanokama). Uma criança se esconde no capinzal, e seu papel é surpreender as demais crianças, pulando sobre elas como se fosse o bote de uma onça.

2. Entre os índios Tenetehara, do Maranhão e Pará, há um jogo chamado "caça ao veado". Um indiozinho faz o papel do veado e tem de fugir de outra criança que representa o caçador e de várias outras que representam os cachorros.

3. Entre os índios Canela, do Maranhão, as crianças formam uma fila, começando pelos mais fortes e altos. Cada criança abraça forte a da frente, passando os dois braços por baixo do colega. Uma das crianças fica fora da fila e representa um Gavião. Ele vai falando com cada um da fila dizendo que tem fome e ataca sempre a última da fila. Enquanto o Gavião tenta apanhar esse último, o grupo - sempre abraçado - tenta cercar o Gavião.

4. As crianças Kamayurá, do Parque do Xingu, também formam uma fila, todos sentados e abraçados ao colega da frente. O primeiro da fila se agarra firme a um toco. Um outro grupo tenta arrancar o último da fila e se utiliza de cócegas, arranhões e puxões bem firmes.

5. Há brincadeiras que são representações do papel do adulto dentro da sociedade indígena. Entre os Mehinaku, as crianças fingem estar doentes e imitam procedimentos de cura dos pajés adultos. Há também a imitação do casamento, onde os meninos fingem que saem para caçar, trazem folhas representando a caça e as entregam às meninas, que fingem preparar o alimento. Esse jogo tem variações interessantes: às vezes as meninas fingem arrumar amantes enquanto o menino está fora caçando; quando este chega em casa, finge ter raiva da mulher enquanto o amante foge.

6. Um brinquedo bastante comum entre etnias de todo o Brasil é a chamada "cama-de-gato", onde as crianças entrelaçam um barbante nos dedos das mãos formando figuras.

Uma outra diferença importante entre a infância dos índios e não-índios é o grau de autonomia que gozam as crianças indígenas. São sempre criadas com muita liberdade e raramente repreendidas. Um bom exemplo dessa autonomia é mostrado em um filme chamado "Das Crianças Ikpeng para o Mundo", feito por um adolescente Ikpeng dentro do projeto Vìdeo nas Aldeias. Nesse filme, dois garotos de uns 10 anos, apresentam o cotidiano da aldeia e das crianças dessa etnia, índios que vivem no Parque do Xingu. Em uma cena as crianças organizam uma pescaria. Saem umas doze crianças, com idades variando de 5 a 10 anos - somente elas - remando por um rio gigantesco até uma ilhota no meio do rio. Pescam, mergulham, brincam, e voltam remando sozinhas até a aldeia. Em outra cena, um dos meninos pega um facão, quase de sua altura. Fica parecido com um samurai japonês. E então esculpe um aviãozinho num pedaço de madeira. São ações que fariam uma mamãe não-índia arrepiar os cabelos, mas que por outro lado fortalecem a autoconfiança do índio desde pequeno.

Para saber mais:
- Marangmotxínmi Mïrang (Das Crianças Ikpeng para o Mundo) / direção de Kumaré, Karané e Natuyu Yuwipo Txicão e edição de Mari Corrêa; filme do projeto Vídeo nas Aldeias; 2001
- Mehinaku: the drama of daily life in a brazilian indian village / escrito por Thomas Gregor; 1992
- O Jogo da Onça / escrito por Maurício Lima e Antônio Barreto; 2005

 

O dia em que o céu caiu

Os índios Ikolen, chamados pelos não-índios de Gavião de Rondônia, são um grupo de 450 pessoas que vive no estado de Rondônia.

Segundo a história desse povo, muito antigamente, eles ouviram um forte trovão. Os índios olharam para cima e notaram que o céu estava descendo em encontro à terra, bem devagar.

Passou um tempo e o céu estava bem próximo. Mais um pouco e todos morreriam esmagados. Os Ikolen ficaram desesperados e entraram todos para dentro de sua maloca, com muito medo e sem saber o que fazer.

Só um menino pequeno ficou do lado de fora. Ele era valente. Tomou uma flecha e a atirou contra o céu.

E o céu subiu um pouco.

O menino atirou mais duas flechas, e o céu subiu até a altura em que está hoje. Foi essa criança quem salvou todos os índios Ikolen.

Para saber mais:
- várias histórias do povo Gavião-Ikolen foram reunidas, a pedido deles, no livro "Couro dos Espíritos", organizado por Betty Mindlin, em 2001.

 

Arte feita por Crianças

A arte produzida nas aldeias indígenas, e também em outras comunidades tradicionais, é resultado do aprendizado de técnicas e padrões que são transmitidos de geração para geração. O artista faz um adorno, trança um cesto, molda uma cerâmica, porquê viu desde que era criança, os mais velhos de suas comunidades fazendo trabalhos semelhantes.

Há o primeiro momento em que a criança decide imitar os adultos. Criam obras onde ainda falta o domínio da técnica, mas sobram a espontaneidade e a vontade de criar. E às vezes criam obras que encantam os olhos, desde muito cedo.

Os índios Guarani esculpem figuras de animais na madeira que depois são decoradas usando-se fogo. Os adultos fazem esses bichinhos para as crianças brincarem, mas um menino Guarani de 8 anos, da aldeia Tekoa Marangatu, de Santa Catarina, resolveu fazer ele mesmo alguns desses animais, mostrados abaixo:
cotia de madeira - indios guaranionça de madeira - índios guarani

 

No vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, há também peças que são fruto de brincadeiras de crianças que observam suas mães moldando as famosas bonecas da região. As peças abaixo são de duas crianças de cinco anos. A sereia é da cidade de Caraí e a boneca de Santana do Araçuaí.

sereia de cerâmica - vale do jequitinhonha boneca feita por criança do vale do jequitinhonha

 

Nessas peças de crianças, acontece às vezes do talento se manifestar muito cedo. Num local isolado, chamado Ribeirão Santo Antônio, também no vale do Jequitinhonha vive Ulisses Pereira Chaves. Um gênio. Um senhor de 80 anos, cuja obra ultrapassa a fronteira da chamada "arte tradicional" e pode ser exibida em qualquer museu do mundo sem constrangimento. Toda sua família cria cerâmica: irmã, esposa, filhas e filhos. E também a neta: Rosana Pereira. Uma menina de 14 anos que herdou o temperamento e o dom de seu avô. Nota-se a influência dos seres surrealistas da obra de Ulisses Pereira, mas suavizados pela visão infantil do mundo. A figura do lado direito superior é de Ulisses Pereira e as outras três são de sua neta Rosana Pereira.
cerâmica de Ulisses Pereira siameses - cerâmica de Rosana Pereira
minotauro - cerâmica de Rosana Pereira calango - cerâmica de Rosana Pereira

 

Atualizações no site Iandé

Foram acrescentados algumas peças no Museu Virtual da loja Iandé.
As fotos de cada peça estão nos links a seguir:

- Cumbuca de cerâmica dos índios Asurini do Xingu

- Remo de madeira dos índios Rikbaktsa

- Caneca zoomorfa de cerâmica, moldada em Apiaí, no vale do Ribeira

- Maracá dos índios Bororo

- Arco e Flecha dos índios Rikbaktsa

- Tanga de sementes dos índios Wai Wai

 
Iandé - Casa das Culturas Indígenas: rua Augusta 1.371 , loja 07 - Galeria Ouro Velho - São Paulo
Horário de funcionamento:   
segunda a sexta das 9:00 às 17:30h
fone: (11) 3283.4924
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