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Boletim de Histórias - número 2 : outubro/2005

 

Índice

1. Introdução
2. Quem manda em uma comunidade indígena ?
3. A briga no céu (história da cultura dos índios Arara Ukarãngmã)
4. Maruanan: Roda de Teto dos índios Wayana-Apalay
5. Atualizações

 

Introdução

"Tem muito cacique pra pouco índio" - essa é uma expressão que todos já ouviram ou usaram. A palavra "cacique", utilizada inicialmente para descrever lideranças indígenas, passou a ser usada também como sinônimo de "chefe", mesmo fora de grupos indígenas. O dicionário Houaiss a descreve assim: "aquele que dita as regras ou impõe sua vontade num lugar ou sobre um grupo de indivíduos".

Mas como um grupo indígena escolhe seu cacique ? Ele é eleito ou herda esse título ? E ele realmente "impõe sua vontade" aos outros índios ? Ninguém contesta, ou deseja o poder do cacique ?

A resposta é múltipla, como todas as questões que envolvem as mais de duzentas diferentes etnias indígenas do Brasil. Assim como existem países que votam em seus governantes, outros com regimes totalitários, outros que aplicam sistemas de consulta direta à população (como referendos)... também entre os diversos grupos indígenas existem vários sistemas diferentes de governo. Esse boletim mostra como funcionam alguns deles.

E a propósito: "cacique" vem da língua Taino, falada por índios que viviam nas Antilhas, na época em que os primeiros europeus chegaram à América. A palavra foi generalizada pelos europeus para se referir aos chefes de qualquer grupo indígena, mas cada etnia tem uma palavra específica para designar seus líderes. No Brasil, os índios de língua Tupi, que primeiro entraram em contato com os portugueses, chamavam seus líderes de "morubixaba".

 

Quem manda em uma comunidade indígena ?

Cada aldeia indígena é uma unidade política independente. Seus moradores não reconhecem uma autoridade maior que o líder da aldeia e podem entrar em disputa contra outras aldeias. Mesmo índios da mesma etnia, que vivem em aldeias diferentes, podem guerrear.

Mas o poder do líder é limitado. O antropólogo francês Pierre Clastres escreveu que o chefe de uma aldeia não é aquele que manda, mas sim aquele que mais obedece. Um indivíduo torna-se líder porquê detém prestígio entre a maioria dos índios de sua aldeia; um prestígio conquistado pela capacidade de doar, de intermediar conflitos e representar sua sociedade. O poder maior permanece na sociedade de uma forma difusa e ela, como um todo, vigia o líder para não deixar o gosto pelo prestígio se transformar em gosto pelo poder. Quando isso acontece, o líder é abandonado.

Cada etnia indígena desenvolveu seu próprio sistema de governo, ou seja, os mecanismos para controlar e exercer poder. Alguns exemplos estão a seguir:

1. Entre os índios Mehinaku, do Parque do Xingu, o poder do líder é limitado por um conselho de homens formado pelos mais experientes e pelos chefes das maiores famílias da comunidade. Todos os assuntos são discutidos entre esse conselho e as decisões tomadas com a aceitação do grupo. Um detalhe é que somente os homens participam desse "parlamento". A decisão é tomada e cada um deles a comunica às mulheres de sua família. No dia seguinte, as mulheres se reúnem e discutem a decisão masculina. Se elas concordam a decisão é colocada em prática, do contrário o assunto é rediscutido pelos homens até a aprovação de suas mulheres.

2. Nas aldeias dos índios Kayapó, que vivem no Mato Grosso e Pará, coexistem dois chefes. Cada um exerce jurisdição sobre seu próprio grupo e nos assuntos comuns a todos, é necessário um consenso entre eles. Por isso uma das qualidades mais valorizadas para que o índio torne-se um líder, é a capacidade de apaziguar conflitos. Como o líder não tem o poder coercitivo, sua ação é mais voltada na observação das idéias que estão se formando no grupo, e na capacidade de formular essa idéias de uma forma que todos a aceitem. Por outro lado, os Kayapó esperam também que seu líder seja agressivo quando sejam discutidos os interesses da aldeia com membros de fora de sua comunidade. Outra qualidade necessária ao líder é o conhecimento da história da comunidade e dos cantos e preces que encorajam as pessoas e pacificam os fenômenos naturais. Cada líder instrui quatro ou cinco jovens durante anos, para substituí-lo. Nesse processo de formação, os motivos que levam o jovem a desejar a liderança são constantemente questionados e expostos em público.

3. Entre os índios Krahô, do Tocantins, a aldeia é dividida em duas metades. Todo índio pertence a uma dessas metades. Há um líder, indicado pela metade mais forte, que funciona como um "chefe de estado". Ele representa a aldeia perante os membros de fora e tem um poder de moderação de conflitos dentro de sua aldeia. Há porém mais dois líderes, cada qual de uma das facções da aldeia, que orienta e decide sobre os assuntos cotidianos, como um "chefe do governo". Durante metade do ano, o líder de uma facção governa. Na outra metade, é o líder da outra facção. A passagem do poder é marcada por uma grande festa. Mais de uma vez, índios Krahô explicaram esse seu sistema de poder aos não-índios, comparando cada metade da aldeia com partidos políticos da sociedade não-indígena.

4. Os índios Rikbaktsa, do noroeste do Mato Grosso, apresentam marcantes divisões internas, derivadas de laços de parentesco, clãs, grupos de idade, etc... Uma situação que dilui tanto o poder, que acaba levando à ausência de líderes. O processo político interno é conduzido por todas as pessoas, através de muita conversa: todos os acontecimentos são comentados e discutidos e as necessidades e decisões são harmonizadas por - o que pode se chamar - de "opinião pública". O antropólogo Rinaldo Arruda descreveu a "fofoca" como um dos processos de limitação do poder. Quando um índio demonstra o desejo de se impor demais, os Rikbaktsa tornam público esse processo, condenável dentro de sua sociedade, e a zombaria geral dos índios daquele grupo acabam por fazer o "aprendiz" de chefe desistir de sua idéia.

Winston Churchill, estadista inglês, disse uma vez que a democracia era a pior forma de governo, mas ainda melhor que todas as outras. Ele disse isso por não conhecer o sistema de governo dos povos indígenas. Os índios rejeitam o poder da maioria, obtido através da democracia; e trocam-no pelo poder do consenso.

Para saber mais:
- Representação e Participação indígena nos processos de gestão do "campo indigenista": Que Democracia ? / artigo escrito pelo professor Rinaldo Arruda em 2003, apresentado no 8o. Encontro de Antropólogos do Norte e Nordeste - ABANNE
- A Sociedade contra o Estado / escrito por Pierre Clastres; 1974
- Índios do Brasil / escrito por Júlio César Melatti

 

A briga no céu

Os índios Ukarãngmã, chamados pelos não-índios de Arara do Pará, são um grupo de 200 pessoas que vive no sudeste do estado do Pará. Sempre viveram dispersos em pequenos grupos entre os rios Tapajós e Tocantins, e hoje estão espremidos em duas terras indígenas com sérios problemas de invasão de não-índios.

Contam os Ukarãngmã, que antigamente eles viviam todos no céu. Certo dia brigaram entre si. A luta foi tão feroz que muitos deles caíram do céu.

Na terra, as araras vermelhas tentaram levar os índios de volta à morada deles, mas não conseguiram. Os Ukarãngmã ficaram condenados a viver no chão.

Os antepassados desse povo firmaram um acordo: dividiram-se em pequenos grupos, cada qual com seu próprio líder. Grupos independentes e autônomos, que só se encontrariam nas festas e na temporada de caça. Assim nunca mais brigaram entre si.

 

Para saber mais:
- Entre esposas e filhos: poliginia e padrões de aliança entre os Arara ; escrito por Eduardo Viveiro de Castro.

 

Maruanan: Roda de Teto dos índios Wayana-Apalay

Os países têm seus símbolos: bandeiras, brasões, hinos, etc...

Já entre os povos indígenas, esses símbolos estão dispersos e mais integrados ao cotidiano e à arte dos índios. Pinturas corporais, desenhos de cestaria e cerâmica, técnicas de construção... todos esses são sinais que identificam uma etnia. Não existem objetos específicos que sirvam somente como símbolos, sem função ritual ou utilitária.

A peça que mais se aproxima a essa função somente simbólica é o Maruanan, uma peça da cultura dos índios Wayana-Apalay. Esse povo habita a região de fronteira entre Brasil e Suriname e dividem-se em várias aldeias. Em cada uma delas é construída uma casa comunitária, chamada Tukussipan.

Essa casa é o palco das festividades e refeições rituais, as quais os Wayana-Apalay dão muita importância. Serve também para acolher os visitantes de fora da aldeia. No alto do Tukussipan é pendurada a roda de teto maruanan, conforme a foto abaixo:
teto da tukussipan

 

A roda de teto Maruanan é feita somente pelos homens mais idosos da aldeia. É feita em madeira da árvore samaumeira, queimada em uma das faces e formando assim uma base negra para a pintura de seres mitológicos da história dos Wayana-Apalay, principalmente a figura do lagarto-de-duas-cabeças que tem um papel central na formação desse povo.


maruanan maruanan
maruanan maruanan

 

Atualizações no site Iandé

Foram acrescentados algumas peças no Museu Virtual da loja Iandé.
As fotos de cada peça estão nos links a seguir:

- Borduna de Madeira dos índios Katuena

- Máscara do Espírito Tamokó, dos índios Wayana-Apalay

- Cachoeira Assombrada, cerâmica do vale do Paraíba

- Borduna de Madeira dos índios Kayapó

- Vasilha Cerâmica dos índios Munduruku

- Borduna de Madeira dos índios Tiriyó

 
Iandé - Casa das Culturas Indígenas: rua Augusta 1.371 , loja 07 - Galeria Ouro Velho - São Paulo
Horário de funcionamento:   
segunda a sexta das 9:00 às 17:30h
fone: (11) 3283.4924
email: iande@uol.com.br