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Boletim de Histórias - número 3 : 15/novembro/2005

 

Índice

1. Introdução: Guarani-Kaiowá
2. Djasukávy: o Princípio de Tudo
3. De onde vieram os Kaiowá ?
4. Religiosidade Kaiowá

5. Objetos Kaiowá
6. Atualizações no site

 

Introdução: Guarani-Kaiowá

Os índios Guarani-Kaiowá vivem no estado do Mato Grosso do Sul, próximos à fronteira com o Paraguai. Somam aproximadamente 20.000 pessoas.

Regularmente a mídia veicula notícias sobre os Kaiowá. Infelizmente são quase sempre notícias sobre conflitos contra os não-índios por causa de terra; ou então, sobre as precárias condições de vida desse povo, que descambaram - no início de 2005 - na morte de dezenas de crianças, por causa da fome.

Esse boletim chama a atenção para aspectos menos divulgados sobre os Kaiowá: sua arte, festas e rituais, a poesia contida na história da criação do mundo e principalmente a intensa espiritualidade desses índios, que inspirou o antropólogo Pierre Clastres a dizer sobre eles: "... em poucos povos se testemunha uma religiosidade tão intensamente vivida: queremos ser deuses, eles dizem; mas só somos homens".

 

Djasukávy: o Princípio de Tudo

Segundo os índios Guarani-Kaiowá, o Djasukávy é uma filosofia que explica a origem de todas as coisas. Não é uma pessoa ou um deus, o Djasukávy é um princípio vital de emanação, de proveniência, de criação.... Dele vieram os deuses, e até hoje: todos os homens.

A criação do mundo iniciou-se com Ñande Ramõi Jusu Papa, que criou a si próprio, a partir do Djasukávy.

Ñande Ramõi Jusu Papa (ou Nosso Grande Avô Eterno) criou os outros seres divinos. A partir do centro de seu cocar criou também sua esposa: Ñande Jari. Em seguida construiu o mundo, levantou o céu e criou as matas.

Ñande Ramõi Jusu Papa viveu na terra por um tempo. Certo dia brigou com sua esposa por ciúmes, e decidiu ir embora. Estava porém com muita raiva e decidiu destruir o mundo que havia criado.

Ñande Jari, sua mulher, cantou acompanhada de um takuapu, uma taquara grossa de um metro de comprimento, que é batida no chão para produzir um som surdo. Foi o primeiro canto sagrado realizado na terra, e impediu a destruição do mundo.

Até hoje, as índias Kaiowá tocam o takuapu nas cerimônias desse povo.

 

De onde vieram os Kaiowá ?

Não era fácil a vida dos índios da nação Guarani por volta do século XVII. De um lado os espanhóis os capturavam para trabalharem como escravos, do outro os bandeirantes paulistas vinham com a mesmíssima intenção. Alguns índios se refugiaram junto aos jesuítas. Muitos morreram.

Alguns índios conseguiram abrigo em territórios inacessíveis: uma densa floresta que existia onde hoje é a fronteira entre Brasil e Paraguai. Por volta de 1750, expedições nessa região relatam encontros com índios da floresta, que foram chamados "caiguá" (gente da floresta), depois disso, devido à dificuldade de acesso, os não-índios só voltaram a encontrar esse povo, no fim do século XIX, quando a região passou a ser explorada por uma companhia de erva-mate. Os não-índios passaram a chamar esse grupo de "Kaiowá". (Já os Kaiowá chamam a si próprios de pai-tavyterã, que significa "povo da verdadeira terra futura")

A partir de 1950, a despovoada região do Mato Grosso do Sul sofre uma explosão populacional por causa de grandes projetos agrícolas. Toda a área onde estavam os Kaiowá é desmatada e se transforma em fazendas. Os Kaiowá, "índios da floresta", permaneciam no mesmo lugar onde haviam se escondido por 200 anos, só que agora não havia mais florestas.

 

Religiosidade Kaiowá


fotos de índios Guarani-Kaiowá tiradas por Egon Schaden, fonte: livro "Aspectos Fundamentais da Cultura Guarani"

 

Há uma filosofia praticada pelos Kaiowá, e também por outros grupos de índios Guarani, chamada ñemboro´y.

Essa palavra significa "tornar algo frio". Consiste em um procedimento para abordar qualquer problema vivido pelo índio e por sua comunidade. A questão é abordada de três pontos de vista: do teko porã, que é o "modo de ser bom"; do teko joja, que é o "modo de ser justo"; e do teko marangatu, que é o "modo de ser sagrado". Esse procedimento faz com que os assuntos sejam tratados, levando-se em conta todos os aspectos relevantes para o indivíduo e sua sociedade, inclusive - muito importante para os Kaiowá - o aspecto religioso, a busca por deus e suas manifestações.

A produção do milho é uma dessas atividades, impregnada de rituais sagrados. Os Kaiowá cultivam diferentes espécies de milho, mas dão preferência a um milho branco e mole, conhecido pelos caboclos por saboró. São realizadas diversas bençãos durante a lavoura: antes de queimar a roça, na véspera do plantio, quando o milho tem meio metro de altura, quando se forma o grão, quando se pode tirar o milho verde, depois de preparados os primeiros alimentos e enfim quando se faz a primeira chicha, uma bebida fermentada de milho.

A principal cerimônia Kaiowá chama-se avati kyry, que é o batismo do milho. O líder religioso começa a cantar no fim da tarde e termina só no amanhecer do dia seguinte. Ele entoa um canto comprido, cujos versos não se repetem e não podem ser interrompidos. Cada verso que o líder canta, é repetido pela comunidade. Os homens tocando o mbaraka, um chocalho de mão; e as mulheres tocando o takuapu, a taquara usada pela esposa do criador em seu primeiro canto sagrado.

 

Objetos Kaiowá

Há 50 anos, os Kaiowá distinguiam-se de outros grupos Guarani pelo uso masculino do tembetá, um ornamento feito com a resina de uma árvore, e passado através de um furo no lábio inferior do índio. A cerimônia de furação era envolvido por grandes segredos e realizada junto com a festa do batismo do milho. Na hora da furação, todos os homens sem tembetá tinham de sair. Hoje em dia o uso desse adorno está rareando entre os Kaiowá.

Outros adornos importantes são os ornamentos plumários que entre os Kaiowá, assim como em outros grupos Guarani, têm caráter estritamente religioso. Nas difíceis condições que levam os Kaiowá, na devastada terra do Mato Grosso do Sul, eles ainda conseguem fazer seus adornos, com o pouco material disponível em suas terras hoje em dia. Criam obras de arte, peças dignas de serem usadas em rituais. O cocar abaixo é feito com penas de galinha amarradas em tiras de pano e pertenceu à esposa de um líder religioso, que a utilizava em 2003.

Para saber mais sobre os Guarani-Kaiowá:
- Aspectos Fundamentais da Cultura Guarani / escrito por Egon Schaden
- Kandire - O Paraíso Terreal / escrito por Sergio Levcovitz

Os textos a seguir também falam sobre os Kaiowá:
- Blues da piedade em versão guarani-caiuá, por Fernando Gabeira
- Os índios e a fronteira, por Márcio Santilli
- O lugar do índios, por Washington Novaes

 

Atualizações no site Iandé

Leia o desabafo de Aké Panará, ao ver as terras originais de seu povo destruídas por garimpeiros.
No endereço: http://www.iande.art.br/textos/pensamentoindigena.htm

Foram acrescentados algumas peças no Museu Virtual da loja Iandé.
As fotos de cada peça estão nos links a seguir:

- Máscara de Entrecasca, feita pelos índios Kubeo

- Máscara de Entrecasca, feita pelos índios Tikuna

- Panela de Cerâmica, feita no vale do Ribeira por neta de escravos

- Lobo de Cerâmica, feito em Apiaí, no vale do Ribeira

- Quadro pintado pelos índios Tikuna: Curupira / Caipora

- Quadro pintado pelos índios Tikuna: Espíritos da Floresta

- Quadro pintado pelos índios Tikuna: Araras

- Quadro pintado pelos índios Tikuna: Aves e Espírito da Floresta

- Quadro pintado pelos índios Tikuna: Tucano e Espíritos

- Quadro pintado pelos índios Tikuna: Onça caçando Anta

- Quadro pintado pelos índios Tikuna: Araras e Ritual

 
Iandé - Casa das Culturas Indígenas: rua Augusta 1.371 , loja 07 - Galeria Ouro Velho - São Paulo
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fone: (11) 3283.4924
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