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Boletim de Histórias - número 5 : 31/dezembro/2005

 

Índice

1. Introdução: Xamanismo e Pajelança
2. Preparação do Xamã/Pajé
3. História do Primeiro Xamã - segundo o povo Krahò
4. Ações de alguns Pajés
5. Objetos de Xamãs/Pajés

6. Atualizações no site

 

Introdução: Xamanismo e Pajelança

O Xamanismo já foi descrito como uma atitude religiosa, que se expressa através da comunicação de algumas pessoas, especialmente qualificadas, com seres sobrenaturais. Essas pessoas são chamadas de xamãs.

No tempo em que os primeiros europeus chegaram ao Brasil, havia xamãs entre os índios que habitavam a costa. Eles curavam os doentes e aconselhavam os índios nos assuntos espirituais. Exerciam uma forte influência política também. Esses xamãs eram chamados, na língua Tupi falada por aqueles índios, de Pa'yé; termo incorporado à língua portuguesa como "pajé", e que passou a designar os xamãs dos povos indígenas do Brasil.

Um parênteses: o termo "xamã" tem origem na língua dos siberianos tungus e significa "aquele que fala com os espíritos", ou "aquele que fala com a Natureza".

Praticamente todas as comunidades indígenas contam com um ou mais indivíduos que atuam como xamãs, curando não apenas o corpo dos doentes, mas também a alma deles. Povos indígenas sem xamãs ficam sem uma referência espiritual e acabam por se desestruturar. No final da década de 40 os índios Urubu-Kaapor, do Maranhão, passaram por essa experiência após epidemias que mataram parte de sua população. Eles diziam que todos os seus pajés haviam morrido. Uma busca desse povo, na época, era o reaprendizado das práticas médicas / espirituais com os índios Tembé, seus vizinhos, que praticavam rituais semelhantes.

Esse boletim traz algumas histórias sobre os pajés: o aprendizado das técnicas, uma lenda de como surgiu o primeiro xamã dos índios Krahó e descrições de curas.

Essa notícia passou desapercebida, mas é de extrema importância e vale à pena registrá-la: entre os índios Yawanawá, do Acre, duas mulheres tornaram-se pajés. No universo predominantemente masculino dos xamãs indígenas, essa notícia é bem vinda. É como se no Brasil não-índio, uma mulher fosse ordenada para o cargo de Bispo. As duas índias Yawanawá passaram por um rigoroso treinamento: foram meses alimentando-se apenas de pequenos peixes e bebendo a ayahuasca, base das práticas religiosas dos indígenas da região e famosa por ser usada nos rituais do Santo Daime. A notícia foi publicada no jornal "O Estado de São Paulo" e pode ser acessada pelo endereço http://www.amazonia.org.br/noticias/noticia.cfm?id=190519 . É uma leitura obrigatória.

 

 

Preparação do Xamã / Pajé

Geralmente nas aldeias indígenas existem um, ou mais indivíduos, que dominam as práticas xamânicas. Há diferenças entre os xamãs de diferentes etnias, mas há também diferenças nas práticas e na formação dos xamãs de uma mesma etnia. Entre os índios Bororo, do Mato Grosso, há os pajés "aroettaware" e pajés "bari", cada qual com suas práticas e, não raras vezes, rivalidades. Entre os índios Tukano, do noroeste do Amazonas, há três tipos diferentes de pajés: os "yaí", que curam pela água e pelo sopro e curam os indivíduos; os "baiá", que curam pela música e preocupam-se mais com a proteção de toda a coletividade; e ainda os "kumu", que curam através da palavra e das plantas.

Entre os índios do Alto Xingu, no Mato Grosso, há alguns pajés muito respeitados que conseguem até mesmo ver os espíritos. Há outros pajés que não conseguem vê-los, mas que assim mesmo dominam alguns segredos e são chamados para curas mais simples e também para auxiliar os pajés mais poderosos.

Na preparação de todos esses xamãs existem alguns pontos em comum.

Os indivíduos que se tornam pajés passam em determinado momento, por uma situação extrema de fragilidade física; causada por doença ou pela privação voluntária de comida, sono ou água. Nesse estado, com a consciência alterada, ele entra em contato com os espíritos que lhe ensinam práticas mágicas. Há uma espécie de "morte" ritual do indivíduo, e quando ele renasce, torna-se um xamã. Esse procedimento nem sempre é de escolha própria do índio. Grande parte dos pajés contam que não queriam esse ofício, mas que acabaram sendo escolhidos para eles, por essas forças sobrenaturais.

Os índios Canela-Ramkokamekrá, do Maranhão, chamam seus xamãs/pajés de "cai". O aspirante a "cai" cumpre uma abstinência sexual que dura meses. Durante todo esse tempo se alimenta pela manhã de um pouco de farinha misturada à água, e pela noite apenas mingau de arroz. Ao fim desse período ingere chás feitos com folhas de sucupira e uma planta chamada sabão, além de lamber o látex de um tronco chamado pau-de-leite. Após tudo isso ele consegue compreender a linguagem dos animais e dos espíritos. O índio acorda em um mundo onde é guiado por um parente morto, ou um animal, e recebe ensinamentos de vários animais. Há especialidades ensinadas por cada um desses espíritos, portanto o futuro "cai" torna-se um especialista em determinados procedimentos, assim como um médico é especializado em determinadas doenças. O xamã Canela-Ramkokamekrá precisa ainda guardar segredo sobre sua condição durante meses, até o dia em que seus mestres espirituais o liberam, e ele realiza uma cura pública, revelando sua condição de "cai".

Entre os índios Tapirapé, do Mato Grosso, a crença é que seus xamãs são ensinados pelo espírito Tõpu, que controla os raios e tempestades. O pajé, ou "pancé" na língua Tapirapé, abandona seu corpo e viaja até a morada de Tõpu. Há uma crença que esse espírito atira suas flechas, que são os relâmpagos, sobre os índios, mas só os que sobrevivem ao raio tornam-se xamãs. Abaixo está uma representação, feita pelos Tapirapé em cêra de abelha, do espírito Tõpu.

Entre os índios Kamayurá, do Mato Grosso, estão alguns dos mais respeitados pajés de todo o Parque do Xingu, reconhecidos até por etnias vizinhas. A iniciação do pajé Kamayurá Sapaim, foi registrada pelo sertanista Orlando Villas-Bôas. Sapaim estava na roça quando sentiu um cheiro forte de fumo e cambaleante se dirigiu à sua rede. Ficou deitado lá. O irmão de Sapaim, o grande pajé Tacumã, disgnosticou que os espíritos "Mamaé" estavam procurando Sapaim para transformá-lo em pajé.

Sapaim não queria esse encargo. Sabia que as responsabilidades de um pajé são grandes. Recusou um cigarro que seu irmaõ Tacumã lhe oferecia, para facilitar o processo de iniciação xamanística. Sapaim ficou deitado na rede por vários dias quando despertou com o cheiro de fumo novamente e ouviu o espírito Mamaé a seu lado. O espírito transferiu sua força a Sapaim e mandou-o correr. As pessoas da aldeia contaram que Sapaim levantou enfurecido de sua rede, corria pela aldeia, entrava nas casas puxando os cabelos das mulheres e quebrando potes de cerâmica. A certa altura agarrou um homem de seu tamanho e subiu no teto de uma oca com ele. Os dois caíram lá de cima, mas estranhamente, não se machucaram. Sapaim voltou à rede e ouviu o espírito Mamaé dizendo: "Estou ensinando a você aquilo que nós sabemos. Queremos que você tenha o poder de fazer o bem curando com a ajuda dos espíritos. Agora vou fazer você ficar bom".

O Mamaé lançou fumaça sobre Sapaim e lhe concedeu o dom de saber sobre as doenças dos índios através de um espasmo muscular nos ombros. Se o doente tratado provocasse um movimento no ombro direito, seria o sinal que ficaria curado. Enquanto isso, Tacumã e outros pajés, lançavam fumaça de seus cigarros sobre o corpo inerte de Sapaim deitado na rede.

Sapaim acordou refeito e mudou seu nome para Nhanamacumá. No dia seguite realizou sua primeira cura em um índio doente de sua aldeia.

 

 

História do Primeiro Xamã - segundo o povo Krahò

Contam os índios Krahò que há muito tempo atrás, um homem ficou muito doente. Nada conseguia curá-lo e ele estava prestes a morrer.

Os Urubus levaram aquele homem para o céu, na aldeia dos pássaros. Lá trataram dele e ele ficou bom.

Na aldeia dos pássaros, o índio Krahó aprendeu as artes da magia com um Gavião. Quando o índio voltou lá do alto, passou a curar as pessoas de sua aldeia do jeito que havia aprendido no céu.

Aquele homem foi o primeiro xamã Krahò. O primeiro com poderes mágicos. Até hoje, quando um Krahò torna-se pajé, ele passa pelo mesmo ritual.

 

 

Ações de alguns Pajés

O austríaco Georg Grünberg produziu no fim da década de 60, uma pesquisa com os índios Kayabi, do norte do Mato Grosso. Ele relatou uma cura que presenciou, realizada pelo pajé Timaka'i no índio Purikato. Georg Grünberg menciona que foi o único a observar o procedimento de perto, fato que divertiu os outros índios, que acharam bastante estranha essa curiosidade do homem branco.

Ele contou que o pajé caminhou vagarosamente, de olhos fechados e braços cruzados, em volta da rede do paciente. Timaka'i fumava um charuto, parava de tempos em tempos, murmurava baixinho e tocava uma flauta de osso de onça. Depois de uns quinze minutos, curvou-se e gemendo alto passou as duas mãos sobre o corpo do doente. Junto à rede, a esposa do paciente segurava uma peneira onde finalmente caiu um objeto invisível. Timaka'i carregou a peneira para fora, visivelmente pesada, e atirou seu conteúdo em diversas direções, gritando alto. Em seguida sentou-se junto ao doente e colocou a mão sobre o fígado dele. Gritava "hókó'ké", primeiro devagar e depois cada vez mais rápido e alto até entrar em transe. Nesse estado, agarrou um objeto invísivel com uma das mãos e o deixava cair imediatamente para a outra mão, porquê parecia ser muito quente. Ele correu para fora com esse objeto. Estava com o rosto muito vermelho, transpirava muito e espumava os lábios. Depois de se acalmar, voltou ao paciente, virou-o de costas e repetiu o procedimento todo. Uma hora depois, o pajé Timaka'i voltou à sua casa, visivelmente doente. Na noite seguinte, sozinho, voltou a cantar "hókó'ké" e vomitou. Apresentava todos os sintomas do doente. O paciente, a essa altura havia apresentado uma nítida melhora.

 

A antropóloga Rose Panet produziu um trabalho para a Comissão de Folclore do Maranhão, onde registrou uma cura de um xamã Canela-Ramkokamekrá, da aldeia Escalvado. Ela menciona que o xamã ouve atenciosamente as queixas do paciente e de seus familiares, como faria um bom médico.

Rose Panet contou que o xamã visitou uma menina de quatro anos. Seus pais queixavam-se que a menina dormia mal, tinha pesadelos e acordava gritando às noites. O xamã perguntou para o pai se havia caçado macaco nos últimos tempos. O pai confirmou que atirara num macaco em uma árvore mas não conseguiu matá-lo, apenas feriu o animal. O pajé explicou que em casos assim, o espírito do animal pode voltar e perseguir os filhos do caçador. Ele soprou fumaça pelo corpo da criança, recomendou que não a deixassem se olhar no espelho antes de dormir e receitou um chá de uma espécie de rama, que era para ser usado na lavagem dos cabelos da menina. Nesse caso, a doença havia sido causada pela quebra de uma regra social dos índios Canela.

O trabalho de Rose Panet pode ser lido na íntegra no endereço http://www.cmfolclore.ufma.br/Htmls/Boletim%2019.htm

 

Uma história deliciosa foi registrada por Orlando Villas-Bôas, entre os índios do Xingu. Ele conta que um pai estava andando na mata com seus dois filhos, uma menina de uns 9 anos e um menino de 7. De repente as crianças desapareceram. Como que por mágica.

O pai se desesperou. Voltou a aldeia e todos os melhores rastreadores se propuseram a procurar as crianças. Passaram dias andando na mata, buscando sinais dos dois mas nada encontraram. A notícia se espalhou por outras aldeias da região e índios de outras etnias vieram ao local onde as crianças haviam se perdido para ajudar na busca. Passaram-se doze dias e nada encontraram, nenhum sinal das crianças ou de animais que pudessem tê-las comido.

Durante todo esse tempo, pajés de várias aldeias rezavam pelas crianças e buscavam soluções no mundo dos espíritos, mas também não encontraram nenhum sinal. Orlando Villas-Bôas sugeriu que convocassem Tacumã, pajé dos Kamayurá, um dos mais respeitados de todo o Xingu. O pai das crianças estava receoso, pois não tinha como pagar o serviço de Tacumã. É costume que os pajés sejam pagos com colares de caramujo ou outras peças valiosas dentro da cultura indígena. Orlando se comprometeu a ajudar no pagamento e chamaram Tacumã.

O grande xamã Kamayurá chegou à aldeia e impôs uma condição: que os outros pajés seguissem suas ordens durante aquele trabalho. Houve resistência, mas Orlando Villas-Bôas convenceu a todos para assim procederem. Tacumã começou a fumar, e em transe profetizou que as crianças apareceriam na roça da aldeia naquele dia.

Todos permaneceram em grande expectativa, mas o sol se pôs e nada aconteceu. Alguns dos outros pajés ficaram até contentes e gozaram de Tacumã. No dia seguinte ele voltou a fumar desde a madrugada. Perto do meio-dia mandou que todos se retirassem do páteo da aldeia e fechassem as portas da maloca. A única porta que ficaria aberta era a oca onde estavam reunidos os pajés. Tacumã disse que as crianças entrariam por ela ao meio-dia em ponto.

O piloto do avião que levara Orlando Villas-Bôas a aldeia ficou vigiando a maloca dos pajés de um local próximo. Com o sol a pino, e com todos trancados dentro de casa, ele viu as duas crianças entrando dentro do páteo da aldeia e indo até a maloca. Houve uma grande gritaria que anunciou que as crianças haviam aparecido, depois de duas semanas de sumiço.

Do contrário ao que era esperado, as duas estavam muito bem de saúde. Nada combalidas. Mas não souberam dizer aonde estavam, onde dormiram e como haviam se alimentado.

 

Para saber mais:
- A arte dos pajés: impressões sobre o universo espiritual do índios xinguano / escrito por Orlando Villas-Bôas
- Os Kayabi do Brasil Central: História e Etnografia / escrito por Georg Grünberg

- Índios do Brasil / escrito por Júlio Cezar Melatti

 

 

Objetos de Xamãs / Pajés

Um pitoresco objeto utilizado pelos índios Yawanawá em seus rituais é uma vasilha utilizada para beber a ayahuasca, que depois transforma-se numa buzina. É chamada "Kepu" na língua Yawanawá. Os pajés preparam a bebida. Durante os cantos e danças, a vasilha é carregada junto ao corpo por uma alça feita com a fibra de uma árvore. Após terminado o líquido, os índios assopram dentro da vasilha por uma taquara, e produzem um som grave. A seguir está uma dessas peças, coletada em 2004

 

Entre os índios Nambikwara, que habitam a divisa dos estados de Mato Grosso e Rondônia, alguns pajés possuem um cetro de madeira, que é um símbolo de sua qualificação especial. Os índios traduzem o nome dessa peça para português como "espada do pajé". Na língua Nambikwara ela se chama "Ualukatu". A seguir uma foto de uma dessas peças:

 

Atualizações no site Iandé

Na seção de "textos fundamentais", foi acrescentado o artigo escrito por Claudio Bombieri sobre o ritual de batismo dos índios Urubu-Kaapor

- Batismo: um projeto de vida

 

 
 
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