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Boletim de Histórias - número 6

 

Índice

1. Introdução: Macunaíma, herói sem nenhum caráter
2. A Árvore do Mundo
3. Incêndio Universal
4. Como a arraia e a cobra venenosa vieram ao mundo
5. Makunaíma e Waimesá-Pódole
6. Herói sem nenhum caráter ?
???
7. Atualizações no site

 

1. Introdução: Macunaíma, herói sem nenhum caráter

O escritor Mário de Andrade escreveu, em 1928, o livro "Macunaíma, o herói sem nenhum caráter".

Nessa história, Macunaíma é um índio que nasce na floresta amazônica. Ele passa por diversas aventuras que o levam até a cidade de São Paulo, e por fim volta à sua terra, transformando-se em uma constelação. O livro tornou-se um clássico da literatura brasileira. Houve quem enxergou na amoralidade do personagem principal, uma representação perfeita da índole do povo brasileiro.

O que é menos divulgado é que Macunaíma é um importante personagem nas histórias da mitologia dos grupos indígenas que habitam - até hoje - a região de fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana. Doze anos antes do lançamento do livro de Mário de Andrade, o antropólogo alemão Koch-Grünberg recolheu e publicou histórias desses índios, no livro "Do Roraima ao Orinoco". Mário de Andrade nunca escondeu que essa obra foi a fonte principal para a redação de seu "Macunaíma".

Existem histórias em que os heróis são corretos e incorruptíveis, e que combatem vilões que encarnam o mal absoluto. Nas histórias dos índios, Macunaíma não se enquadra nessas classificações. Os resultados de suas ações são bons (como a criação dos homens e da geografia do lugar), mas nem sempre são boas suas intenções. Macunaíma faz trapalhadas, age de forma vil ao espalhar suas feridas pelos caminhos só para que os índios também se machuquem, engana o irmão para fazer sexo com a cunhada... e às vezes até age de forma nobre. Foi essa complexidade que atraiu a atenção de Mário de Andrade.

Esse boletim traz versões resumidas de algumas das histórias originais de Macunaíma, narradas ao antropólogo Koch-Grünberg por dois índios: Mayuluaípu, da tribo Taurepang; e Akúli, da tribo Arekuná.

A base desse boletim é o livro "Makunaíma e Jurupari - Cosmogonias Ameríndias", organizado por Sérgio Medeiros e publicado pela Perspectiva. É um detalhado e criterioso trabalho, que traz a íntegra das histórias recolhidas por Koch-Grünberg traduzidas para o português e com todas as notas explicativas da versão original. Há também brilhantes análises críticas dessas histórias. É uma leitura recomendada aos amantes da literatura indígena.

 

 

2. A Árvore do Mundo

Makunaíma e seus irmãos estavam passando fome. Somente Akúli (a cutia) estava sempre bem alimentado. É que Akúli havia encontrado a árvore Wazaká, que estava carregada de todas as frutas boas que existem. Ele não disse nada sobre a árvore. Comia as frutas boas e trazia as imprestáveis para os outros.

Makunaíma ficou desconfiado. Um dia levantou o lábio de Akúli enquanto este dormia, e encontrou um grão de milho entre os dentes dele. Makunaíma mandou vigiar Akúli para descobrir de onde vinha a comida.

Certo dia seguiram Akúli e descobriram a árvore Wazaká. O irmão mais velho, Jigué, disse aos irmãos que comessem apenas as frutas que caíam no chão, mas Makunaíma não concordou e derrubou a árvore.

A árvore caiu para o norte, e é por isso que há diversas frutas silvestres naquela região. O toco da árvore é o Monte Roraima.

Jigué cobriu o toco da árvore com um cesto, e de lá saíam muitos peixes. Makunaíma levantou um pouco o cesto e começou a jorrar muita água de dentro do toco. Ninguém mais conseguiu conter a enchente.

Makunaíma e Jigué plantaram duas árvores de inajá e subiram nelas para esperar as águas baixarem. Jigué reclamou que as frutas do inajá não tinham gosto. Makunaíma pediu uma fruta ao irmão, deu uma dentada nela e a esfregou em seu pênis. Depois a devolveu a Jigué dizendo: "Experimenta agora".

E até hoje a árvore de inajá dá frutas na época das chuvas.


Monte Roraima (à direita)

 

 

3. Incêndio Universal

Quando a água da grande enchente secou, veio um grande fogo.

O fogo queimou tudo: os homens, as montanhas as pedras. Os rios secaram.

Makunaíma fez novos homens de cera. Mas quando eles saíram ao sol se derreteram. Então Makunaíma fez homens de barro, e quando eles saíram ao sol, ficaram cada vez mais duros.

Depois Makunaíma os transformou em gente.


índios Taurepang - fotos pertencentes ao Mosteiro de São Bento - RJ;
retiradas do livro "O índio na História do Brasil"

 

 

4. Como a arraia e a cobra venenosa vieram ao mundo

Makunaíma brigou com seu irmão Jigué, por causa da esposa deste.

Os dois foram pescar num riacho, e Jigué entrou na água para cercar os peixes. Makunaíma quebrou uma folha da planta Makumúku-yeg, jogou-a na água e disse: "Transforma-te numa arraia e vai pra junto de Jigué. Quando ele pisar em cima de ti, pica-o". Depois Makunaíma chamou Jigué para mais perto.

Jigué veio e pisou na arraia. A arraia picou o pé dele, que gritou muito. Makunaíma disse: "O quê, isto dói, meu irmão ? Mas isso não pode ser ! Se ela tivesse me picado não doeria". Então Jigué pronunciou um feitiço, fazendo a dor desaparecer.

Depois de um tempo, Makunaíma quis construir uma casa. Ele e seu irmão estavam amarrando o teto. Jigué pegou um cipó e disse: "Transforma-te numa cobra", e mandou a cobra se esconder junto com o cipó. Quando Makunaíma pegou no cipó, a cobra o mordeu. Makunaíma gritou muito. Então Jigué disse: "Mas isto não pode doer ! Se ela tivesse me mordido, não doeria". Então Makunaíma pronunciou um feitiço, para não morrer.

Assim Makunaíma fez a arraia e Jigué fez a cobra, que existem até hoje.

 

 

5. Makunaíma e Waimesá-Pódole

Makunaíma e seu irmão Ma'nápe saíram e encontraram Waimesá-Pódole, o pai das lagartixas.

Ninguém podia se aproximar de Waimesá-Pódole, porquê ele tinha uma língua muito comprida e engolia todos os animais.

Makunaíma disse: "quero ver!", e se aproximou. Chegou tão perto que Waimesá-Pódole o engoliu com sua língua.

Ma'nápe correu para casa e avisou os outros irmãos. Todos se armaram e foram salvar Makunaíma.

Os outros irmãos se esconderam. Ma'nápe ficou à frente de Waimesá-Pódole e disse: "Quero ver me engolir como fez a meu irmão". Quando o pai das lagartixas estendeu sua língua, os outros irmãos atiraram flechas em sua cabeça e o mataram.

Então abriram sua barriga. Makunaíma estava lá dentro e ainda vivo. Ele pulou pra fora e disse: "Viram como eu sei lutar com um animal desse ?"

 

 

 

6. Herói sem nenhum caráter ?????
(resumo baseado no capítulo: "Trickster e mentirosos que abalaram a literatura nacional: as narrativas de Akúli e Mayuluaípu", escrito por Lúcia Sá e publicado no livro "Makunaíma e Jurupari - Cosmogonias Ameríndias")

 

Mário de Andrade escreveu:

"No geral meus atos e trabalhos são muito conscientes por demais pra serem artísticos. Macunaíma não. Resolvi escrever porque fiquei desesperado de comoção lírica, quando lendo Koch-Grünberg percebi que Macunaíma era um herói sem nenhum caráter nem moral nem psicológico, achei isso enormemente comovente nem sei porque, de certo pelo ineditismo do fato, ou por ele concordar um bocado bastante com a época nossa, não sei".

 

Uma das principais características das histórias de Makunaíma, narradas pelos índios Akúli e Mayuluaípu para Koch-Grünberg, é a ausência de definição nos traços do personagem. Makunaíma é extremamente corajoso em uma história e covarde em outra; resolve problemas de forma brilhante em certas ocasiões para mais tarde ser enganado de forma estúpida. É um herói. Um vilão. E também vítima, dependendo da ocasião.

Essas incoerências, essas múltiplas faces, não causam problemas na descrição da grande maioria dos seres humanos. Dos seres humanos reais, que já passaram todos por papéis variados durante suas vidas. Ela causa estranhamento se tentarmos encaixar as narrativas em um esquema onde o bem e o mal estão bem definidos e separados. Um esquema que só é válido para contos de fadas europeus e filmes simples de Hollywood. Mário de Andrade sentiu-se atraído pela fluidez e heterogeneidade de Makunaíma. Julgava-o perfeito para descrever as contradições da época de 1920. E por esse ponto de vista, o herói sem nenhum caráter permanece cada vez mais moderno.

Os índios Pemon; que moram nas fronteiras entre Brasil, Venezuela e Guiana; reconhecem Makunaíma como um herói de seu povo. Os índios Pemon dividem-se em diferentes tribos: os índios Taurepang, os Arekuná, os índios Macuxi e os Kamarakoto.

Para os Pemon, Makunaíma não criou o mundo, mas o transformou de uma forma que os índios pudessem viver nele. Ao derrubar a árvore que dava todos os frutos, Makunaíma espalhou as diversas frutas pela região. Foi ele também quem criou a cerâmica, ao fazer os homens do barro. Além disso conseguiu o fogo e com suas ações, moldou toda a geografia dessa área.

O que parece ser mais valorizado pelos índios Pemon nessas histórias, é a capacidade de transformação. Makunaíma é mais criativo e adaptável à mudanças, do que seus irmãos, por exemplo. Para se ter uma idéia do quanto isso é importante, é preciso lembrar que essa área onde vivem os índios Pemon, foi palco de disputas entre espanhóis, portugueses, holandeses, ingleses, e de outras dezenas de grupos indígenas que ao fugir dos invasores europeus, entravam em conflito com outros índios vizinhos.

E no fim, o que aconteceu com Makunaíma ? Um dos narradores indígenas conta que ele foi "para o outro lado do Roraima, onde está até hoje".

 

Para saber mais:
- Makunaíma e Jurupari - Cosmogonias Ameríndias ; organizado por Sérgio Medeiros
- Estado de Sítio - Territórios e identidades no vale do rio Branco ; artigo escrito por Nádia Farage e Paulo Santilli ; publicado no livro "História dos índios no Brasil", organizado por Manuela Carneiro da Cunha

 

7. Atualizações no site Iandé

Foram acrescentados algumas peças no Museu Virtual da loja Iandé.
As fotos de cada peça estão nos links a seguir:

- Bandoleira, dos índios Gavião-Parkatejê

- Lagarto de madeira, dos índios Pitaguary

- Jaraguá, escultura em madeira de Manuel Graciano

- Flauta, dos índios Enawenê-Nawê

- Buzina de cabaça, dos índios Gavião-Parkatejê

 

 
 
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