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Boletim de Histórias - número 11

 

Índice

1. Introdução: A Lenda de Jurupari
2. Nascimento de Jurupari
3. Morte de Ualri
4. As Flautas Sagradas de Jurupari
5. História Indígena no rio Uaupés
6. Atualizações no site

 

1. Introdução: A Lenda de Jurupari

O Jurupari é um personagem que aparece em inúmeras lendas amazônicas. Em algumas histórias é retratado como um herói que trouxe ordem ao mundo, em outras aparece como um temível demônio. Às vezes chamado de "filho do Sol", outras vezes de "filho do Trovão". O fato é que Jurupari está presente na mitologia de diversos povos indígenas, notadamente os que vivem na região de fronteira entre Brasil e Colômbia.

O personagem assume vários nomes: Jurupari, Uakti, Milómaki, Izi, Koai, Wãx-ti... dependendo da língua em que suas histórias são contadas. Mas, afinal, quem é Jurupari ?

Para responder, convém resgatar o nome de um importante escritor indígena: Maximiano José Roberto.

Maximiano era filho de uma índia do povo Tariana com um não-índio. Viveu na segunda metade do século XIX. Possuia grande conhecimento da cultura da região e foi informante de vários etnógrafos da época. Ele coletou as narrativas de Jurupari e montou uma história épica, considerada por estudiosos de hoje como uma das grandes obras da literatura indígena.

A obra foi escrita na língua nheengatu. Maximiano entregou seu texto a um italiano chamado Ermanno Stradelli, que o publicou em 1890, em italiano.

Esse boletim traz fragmentos da história de Jurupari, conforme o registro de Maximiano. As histórias indígenas circulam há séculos dentro das sociedades indígenas, na forma oral. Ao escrever algumas dessas histórias, Maximiano criou uma ponte entre índios e não-índios. Foi um pioneiro e merece homenagens.

 

Para saber mais:
- Makunaíma e Jurupari: Cosmogonias Ameríndias ; organizado por Sérgio Medeiros
- A Civilização Indígena do Uaupés ; de Alcionilio Brüzzi Alves da Silva

 

 

2. Nascimento de Jurupari

No começo do mundo, uma estranha epidemia atingiu os índios da Serra de Tenuiana. Morreram quase todos os homens. Sobreviveram as mulheres e alguns velhos. Para evitar a extinção daquele povo, um velho pajé - nascido da união de uma índia com o rei dos pássaros jacami - fecundou a todas as mulheres da aldeia com sua mágica. Depois disso ele mergulhou num lago onde uma estrela costumava se banhar, e desapareceu.

Dez luas depois, todas as mulheres deram à luz. Entre os recém-nascidos havia uma menina que foi chamada Seuci.

Seuci era de uma beleza esplendorosa. Já adolescente ela entrou na floresta e comeu a fruta proibida do pihican. O suco delicioso da fruta escorreu da boca de Seuci, desceu por seu corpo e banhou-lhe as partes mais recônditas. Após comer as frutas sentiu-se diferente. Examinou-se e viu que não era mais virgem. Estava grávida.

Dez luas depois nasceu um menino forte e belo, que se parecia com o Sol. Foi batizado com o nome de Jurupari.

Os índios elegeram a criança como seu líder. Naquela época eram as mulheres que governavam. Elas discutiam a melhor hora para entregar os símbolos de chefe a Jurupari e quando deram-se conta, a criança havia sumido.

Procuraram por Jurupari, mas nada encontraram. Dos mais altos morros da serra ouvia-se murmúrios de criança. A infeliz Seuci permaneceu na mais alta montanha, chorando a perda de seu filho. À noite ela dormia e ao acordar pela manhã sentia que seus seios estavam vazios. Era Jurupari que vinha junto dela se amamentar.

Depois de 15 anos, Jurupari voltou a sua aldeia. Ele revelou a todos que recebera uma missão do Sol: reformar os usos e costumes dos povos da terra. Ele ferveu uma resina em uma panela com água e criou todos os pássaros que voam pelo céu. Recebeu os enfeites de chefe, ensinou as novas leis a seu povo e mandou que alguns homens fossem às aldeias vizinhas, espalhar as novas leis a outros índios.

 

 

3. Morte de Ualri

Ualri era um dos homens enviados por Jurupari para espalhar as novas leis entre os povos. Ele chegou às terras dos índios Nunuiba.

Certo dia, Ualri estava trepado em uma árvore coletando frutas. Alguns rapazes acenderam fogo perto da árvore para assar as frutas caídas no chão e a fumaça quase sufocou Ualri. Furioso, ele usou um amuleto mágico que lhe fora entregue por Jurupari e criou uma grande tempestade. Os moleques corriam de um lado para outro sem saber como se proteger, e então Ualri transformou-se em uma casa. Os rapazes entraram dentro da casa, mas quando o último deles se abrigou, as portas se fecharam e Ualri voltou a se transformar em homem. Os meninos ficaram dentro da barriga de Ualri.

O pajé dos Nunuiba sentiu a morte dos meninos e contou aos outros índios. Eles resolveram matar Ualri por vingança. A bela índia Diadue seduziu o enviado de Jurupari e tomou-lhe o amuleto mágico. Os homens da aldeia amarraram Ualri e atiraram-no dentro de uma fogueira. Ualri amaldiçoou a bela Diadue e quando seu corpo começou a arder ouviu-se um grande estrondo que sacudiu a terra. Do ventre de Ualri surgiu uma palmeira passiua que cresceu até tocar o céu. Em seguida um vento espalhou as cinzas do corpo dele pela floresta.

Da floresta vieram gritos e cantos que pareciam humanos. Das cinzas de Ualri surgiu uma nova gente chamada Uancten-mascan, um povo invisível que passou a perturbar a paz de todos os índios.

 

 

4. As Flautas Sagradas de Jurupari

Jurupari carregava consigo uma bolsa que lhe foi entregue pelo próprio Sol. De dentro da bolsa, Jurupari retirava pedras que eram pintadas com as sombras do céu, e que mostravam tudo o que acontecia pelo mundo. Nessas pedras, Jurupari também podia ver o futuro.

Em uma dessas pedras, Jurupari viu a morte de Ualri. Ele se transportou até a palmeira passiua que havia nascido do corpo de seu enviado. Uma música saía da palmeira quando o vento assoprava. Jurupari pediu às aves que cortassem as folhas da árvore, e usando a mandíbula de um peixe serrou a palmeira, que na verdade eram os ossos de Ualri.

Daquela palmeira, Jurupari construiu um conjunto de flautas sagradas para que fossem utilizadas nos rituais a partir dali. Cada uma das flautas foi batizada com um nome da língua dos diversos povos que viviam no local. E cada flauta possuia um significado. A seguir estão algumas da flautas construídas por Jurupari:

- O instrumento principal tinha a altura de Jurupari e foi chamado Ualri, cuja história já foi contada.

- A flauta Tintabri (nome de uma ave, em uaupés) tinha o tamanho de um braço. Sua história é a de uma mulher muito bonita mas que era tão vaidosa que foi transformada nessa ave pelo chefe de sua aldeia.

- A flauta Mocino (grilo, no idioma arapazo) tinha o tamanho da coxa de Jurupari. Ela representa a sombra de um homem-mulher que, por não querer amar ninguém viveu sempre escondido cantando apenas de noite. Foi transformado em grilo pela própria mãe da noite.

- A flauta Arandi (arara na língua pira-tapuia) tinha o tamanho de dois braços. Representa uma mulher bonita, mas que não gostava de homens. Foi transformada em arara.

- A flauta Piron (águia, no dialeto Jurupixuna) tinha a largura de três mãos. Representa o pajé, que ganhou da águia as pedras em que via tudo pela imaginação.

- A flauta Titi (paca, na língua Baniwa) do tamanho da medida dos joelhos à cabeça. Representa uma velha que vivia roubando e foi transformada em paca por um esquilo.

- A flauta Canaroarro (saúva, na língua manau) do tamanho da medida dos ombros até o umbigo. Representa um velho que viu em sonho a fome comendo a Terra, e que passou a vida acumulando provisões dentro de casa para quando viesse a fome. Foi transformado em formiga pelo tatu.

 


as duas flautas escuras nas pontas, foram construídas pelos índios Tukano, um dos povos que vivem
na região do rio Uaupés - noroeste do Amazonas - e cuja história tem forte presença do Jurupari

 

 

5. História Indígena no rio Uaupés

A região do rio Uaupés localiza-se no noroeste do estado do Amazonas, já na fronteira entre Brasil e Colômbia. Lá vivem quase duas dezenas de diferentes grupos indígenas: Tukano, Tariana, Tuyuka, Wanana, Desana, entre outros. Cada qual tem sua própria língua. É nessa região que as histórias de Jurupari são mais presentes.


índios (grupo ignorado) da região do Uaupés na década de 50 -
coleção Iandé

 

É difícil para um leitor, que está fora da cultura dos povos dessa região, simpatizar com o personagem de Jurupari após ler toda sua saga. Jurupari é um homem inflexível. Em sua obsessão em reformar os costumes dos povos da terra ele entra em conflito com diversos povos vizinhos e com as mulheres que quebram suas regras. Em um dos episódios, a própria mãe de Jurupari é transformada em estátua por violar os novos costumes.

Para entender melhor a história de Jurupari, vale à pena conhecer a história da região do Uaupés. A variedade de diferentes línguas convivendo no mesmo espaço, denuncia que a ocupação da área foi complicada. É provável que ocorreram conflitos entre as diversas etnias. De acordo com o antropólgo Reichel-Dolmatoff, conviviam juntos há tempos, povos de língua Aruaque, Tukano e Maku. O costume desses povos era a matrilinearidade, ou seja, uma pessoa herda exclusivamente da mãe os privilégios e condições de pertencer a um clã/classe .

Com o tempo, chegaram à mesma área outros grupos indígenas de língua Tukano, vindos do leste. Provavelmente fugindo dos não-índios. Esses grupos passaram a se casar com os índios que já viviam na região, porém os Tukano do leste praticavam a patrilinearidade, ou seja, os privilégios e condições sociais são herdados do pai. Isso deve ter gerado grandes traumas entre os Tukano, que depois de muito conflito acabaram por impor suas regras aos grupos indígenas mais antigos.

Ou seja: "A Lenda de Jurupari" conta a história de uma guerra imperialista, de uma guerra de imposição de outros costumes. A existência da lenda deve estar ligada à história do Uaupés, onde as práticas das proibições e tabus ligados aos rituais de Jurupari são observados por povos indígenas distintos.

Partindo dessa situação é fácil entender o porquê do personagem Jurupari ser retratado como um grande herói em algumas histórias - as histórias daqueles povos que impuseram seus costumes - e ser pintado como um demônio em outras histórias - provavelmente as lendas originais dos povos que eram dominados.

A chegada à região de missionários franciscanos e salesianos, no fim do século XIX, representou uma segunda "guerra pela imposição de novos costumes" aos povos indígenas do Uaupés. Isso é para ser contado em outra ocasião, mas vale lembrar que os missionários relacionaram Jurupari ao diabo, para facilitar a conversão dos índios à religião cristã. Isso fez aumentar um pouco mais as histórias onde Jurupari aparece como causador de males.

"A Lenda de Jurupari" em sua versão publicada em italiano por Ermanno Stradelli em 1890, e que foi traduzida dos originais na língua nheengatu (infelizmente perdidos) escritos pelo índio Maximiano José Rodrigues, foi traduzida para o português no livro "Makunaíma e Jurupari: Cosmogonias Ameríndias", organizado por Sérgio Medeiros. Um texto fundamental para os que querem conhecer a história indígena.

 

Para saber mais:
- Makunaíma e Jurupari: Cosmogonias Ameríndias ; organizado por Sérgio Medeiros
- A Civilização Indígena do Uaupés ; de Alcionilio Brüzzi Alves da Silva

 





6. Atualizações no site Iandé

 

A.) Foi acrescentada na página "Respeito", uma frase do professor João Pacheco de Oliveira, do departamento de antropologia do Museu Nacional, sobre a situação dos índios brasileiros no presente

 

B-) Foram acrescentadas também, algumas peças no Museu Virtual da loja Iandé.


As fotos de cada peça estão nos links a seguir:

- Máscara representando o espírito Atujuá, dos índios Wauja

- Máscara representando o espírito Yakuhitxatô, dos índios Mehinaku

 

 
 
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