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Boletim de Histórias - número 13

 

Índice

1. Introdução: Religiões Indígenas e Religião Cristã
2. Histórias de Santos Católicos, segundo os índios Kaingang
3. O Céu, segundo os índios Palikur
4. Santidades: Rebeliões Indígenas do século XVI
5. Atualizações no site

 

1. Introdução: Religiões Indígenas e Religião Cristã

Junto com os primeiros conquistadores europeus que chegaram à América, ainda no século XV, vieram também os religiosos: padres, missionários, jesuítas, etc. Traziam consigo a fé em Cristo, mas também traziam preconceitos contra outras religiões. Com o passar do tempo, os europeus passaram a combater o modo de vida e as manifestações religiosas dos indígenas, enquanto tentavam impor seus costumes e religião - usando até de bastante violência para isso.

Os grupos indígenas que estavam mais próximos àqueles europeus, acabaram por aceitar as novas normas e religião. Mas por outro lado, elaboraram estratégias de resistência e sobrevivência de suas próprias culturas. Uma dessas estratégias foi a mistura das crenças e costumes nativos com os ritos e histórias cristãs, uma ação que alguns escravos trazidos da África também praticaram ao relacionar as divindades e orixás de suas religiões tradicionais aos santos católicos.

Nesse processo de interação entre duas fés distintas, foram criadas histórias maravilhosas onde Jesus e os santos convivem com espíritos de animais, e ritos católicos onde se usa o fumo sagrado, tão presente nos rituais indígenas. Uma das marcas desse processo pode ser verificada em festas realizadas por algumas etnias indígenas do nordeste, cujas datas coincidem com dias em homenagem a santos do catolicismo. Em várias dessas festas, ritos tradicionais indígenas, como o Toré, são celebrados após uma missa.

Em sua origem, o cristianismo usou a mesma estratégia de coincidir suas datas comemorativas com as de outras religiões. A comemoração do nascimento de Jesus foi escolhida pelos cristãos do século IV como o mesmo dia da secular festividade do nascimento do deus Sol, dos romanos. A época em que se comemora a Páscoa cristã é a mesma em que se celebra a festa hebraica de "Pessach", e de outras religiões que festejavam o início da Primavera no hemisfério norte.

Esse boletim traz algumas histórias onde interagem as tradições indígenas e cristãs.

crucifixo trançado por índios Guarani
Crucifixo de taquara e cipó,
trançado por índio Guarani da cidade de São Paulo

 

 

2. Histórias de Santos Católicos, segundo os índios Kaingang

Os índios Kaingang vivem no sul do Brasil. Desde os primeiros encontros com os europeus, ainda no século XVII, tiveram contatos com missionários católicos e mais recentemente com igrejas pentecostais. Em sua cultura aparecem as chamadas "histórias dos antigos", onde alguns santos - principalmente São Pedro, São João e São João Maria - são personagens recorrentes. Em 1995, o antropólogo Ledson Kurtz de Almeida registrou algumas dessas histórias, narradas pelos índios Vicente Fókâe e Irineu Xarimbang. A seguir estão os resumos de algumas delas:

 

Apresentação de São Pedro

"Quando o Pedro andava pelo mundo com Deus, caminhava muito com Deus. O Pedro era arteiro, então o que Deus fazia ele queria fazer, e foi fazendo. Só que deu diferente o serviço do Pedro. O que Deus fazia ele repetia, mas não dava certo. Deus fez também o peixe e colocou na água e o peixe saiu nadando. O Pedro viu e foi fazer também. Só que Pedro, o que ele fez virou sapo. Então depois disso, Deus subiu pro céu e deixou o Pedro. Era o José o Deus. Daí o Pedro ficou no mundo, ficou na terra, só mentia." (Vicente Fókâe)

 

Casamento de São João com a filha do Rei

Quando andavam na terra do rei, João, Pedro e Antônio foram campear serviço. Lá no rei começaram a cuidar da horta.

O rei falou para os três que sua filha usava um anel no dedo, e quem tirasse esse anel com a ponta da espada, poderia se casar com ela.

João era o irmão mais novo. Cedo ele ia lavar e socar quirela. Lá no rio ele dava um pouco de quirela para os peixes comerem. Na volta deixava um pouco de quirela pras formigas também. Vinha um rato e ele dava quirela pro rato também. Chegou um cavalo, e João deu couve pro cavalo comer. Os bichos diziam pra ele: "quando se apurar, chama nós pelo nome..."

João resolveu tirar o anel do dedo da princesa. Montou no cavalo, veio na corrida e pegou o anel. Aí deixou o chinelo ali. Os homens do rei correram atrás de João mas não o alcançaram. O rei foi ao acampamento dos irmãos com o chinelo e o calçou no pé de João. Os irmãos mais velhos ficaram com raiva do caçula, e mentiram para o rei que João conseguia contar cinco bolsas de trigo derramado em apenas uma hora. O rei chamou João e disse que queria ver se ele era capaz disso.

João chamou o rato e as formigas. Enquanto o rato ia abrindo o saco, as formigas colocavam o trigo dentro e iam contando. Quando o rei chegou, já estava tudo pronto. Então Joãozinho casou com a filha do rei.

 

Profecia de São João Maria

São João Maria saiu a caminhar pelo mundo. Ele tinha poder. Chegou na primeira casa, ficou ali conversando com os moradores. Anoiteceu e ele pediu pouso:

"Aqui não tem cama, não tem coberta, não tem forro" - foi a resposta dos moradores

São João Maria ficou desgostoso com a má vontade. Depois que ele foi embora, a mulher da casa saiu para fazer xixi e não parou mais de urinar. Ficou o dia inteiro urinando.

O santo chegou na segunda casa. Os moradores de lá o receberam muito bem. Conversaram muito e depois foram todos beber chimarrão ao redor de uma fogueira. Enquanto isso, a mulher da primeira casa ainda estava doente. Chamaram São João Maria para curá-la. Ele explicou que eles cometeram pecado quando não deixaram ele dormir ali, mas o santo pediu à mulher um copo da água e quando ela voltou para serví-lo já estava curada.

Quando foi de tarde chegaram alguns índios, que disseram a São João Maria: "pouse aqui com nós, pra nós conversar; pouse com nós aqui pra tomar um chimarrão, fumar um cigarro".

São João Maria perguntou se havia muita fruta ali. Os índios disseram que ali dava muito pinhão, guavirova, peixe, caça, abelheiro, que a vida ali era muito boa. Respondeu o santo:

"Sempre vocês não queiram aceitar. Que um tempo vai chegar pra terminar este mato. Que vem pessoas de longe de outro país. Por aqui mesmo, vão ser enganados vocês. Acontece, mas vocês vão ter que abrir o olho. Vocês vão lembrar de mim, quem é que contou esta palavra. (...) Vai terminar o mato, vai terminar o peixe." (Vicente Fókâe)

 

cestos Kaingang - expostos no museu Julio de Castilhos
em primeiro plano: cestos dos índios Kaingang;
expostos no Museu Júlio de Castilhos, em Porto Alegre

 

 

Para saber mais:
- artigo: "História dos antigos" como objeto de reflexão sobre o cristianismo entre os Kaingang; escrito por Ledson Kurtz de Almeida e publicado no livro "Novas Contribuições aos Estudos Interdisciplinares dos Kaingang", organizado por Kimiye Tommasino, Lúcio Tadeu Mota e Francisco Silva Noelli

- visita ao acervo de cultura indígena do Museu Júlio de Castilhos; endereço: rua Duque de Caxias, 1231 / Porto Alegre / fone: (51) 32213959

 

 

3. O Céu, segundo os índios Palikur

Os índios Palikur vivem na região de fronteira entre Brasil e Guiana Francesa. Desde o início do século XVI, vários viajantes europeus relataram encontros com esse povo. Os Palikur mantinham contatos esporádicos com missionários católicos. A partir de 1950 passaram a conviver de forma intensa com diferentes missionários evangélicos e atualmente a maioria deles segue essa religião. Hoje em dia classificam as histórias de sua mitologia como antigas e falsas, ocorridas no tempo em que não conheciam a religião cristã; contudo ouve-se em certas passagens que o fato em questão é real e ainda ocorre atualmente. Essa ambiguidade permite a convivência da mitologia Palikur com a religião cristã.

Conforme a história Palikur, o universo divide-se em três planos. Há um plano terestre, onde vivem os homens, animais, plantas, e eventualmente, os seres sobrenaturais. Um segundo plano é chamado "mundo do fundo", localizado abaixo da superfície da terra e das águas. e onde vivem seres sobrenaturais que para entrar no plano terrestre precisam se vestir com roupas que os transformem em animais.

Por fim, existe o plano celeste. É representado pelo éden e é reservado àqueles que aceitarem Jesus antes do fim dos tempos. Parece o céu dos cristãos, mas com algumas diferenças...

Os índios Palikur não descrevem o céu com detalhes, mas afirmam que ele é dividido em várias camadas, onde pode-se ver as almas daqueles que não vão alcançar a vida eterna. Essas almas possuem corpo de gente com cabeças de animais.

Na sexta camada do céu mora Jesus Cristo.

Na segunda camada desse céu, vive o Urubu-Rei de Duas Cabeças.

Os não-índios não conseguiram registrar histórias do Urubu-Rei dentro da mitologia desse povo. Os índios Palikur apenas mencionam que o Urubu vive lá no céu. Essa ave de duas cabeças é um personagem que aparece nas histórias de outros povos indígenas. Foi ele quem deu o fogo aos homens, segundo parte dos índios de língua Tupi. Aparece também em histórias recolhidas pelo antropólogo Koch-Grünberg, entre os povos da fronteira entre Brasil e Guiana Inglesa.

Talvez o Urubu-Rei seja um dos poucos sobreviventes do céu Palikur após a evangelização.

 

Para saber mais:
- texto: "Os Palikur"; escrito por Artionka Manuela Góes Capiberibe e publicado no livro "Ponte entre Povos", organizado por Marlui Miranda

 

 

4. Santidades: Rebeliões Indígenas no século XVI

Enquanto os europeus aumentavam sua presença no Brasil, durante todo o século XVI, os índios rebelevam-se contra aqueles invasores. Essas revoltas indígenas foram chamadas de Santidades.

Naquele época, pajés percorriam as aldeias pregando a busca da Terra Sem Males, uma profecia da religião dos índios tupi. Essas pregações eram realizadas conforme os rituais indígenas, através da dança, cantos e utilização do fumo. Esses ritos foram transformando-se em incitação à luta contra os europeus.

Uma dessas revoltas chamou-se Santidade de Jaguaribe. Foi a mais importante dessas rebeliões, mas foi também o último sopro de resistência dos índios Tupinambá na Bahia.

O líder desse movimento era um índio chamado Antônio. Ele nasceu dentro de uma Missão católica, foi batizado e educado na doutrina de Cristo. Era, porém, um grande pajé. Antônio fugiu da Missão e tornou-se um grande pregador da Santidade. Com seus conhecimentos cristãos e tupis ele dizia encarnar Tamandaré, o mítico ancestral dos índios Tupinambá que sobreviveu a um grande dilúvio. No entanto Antônio se proclamava também como "o verdadeiro Papa". Ele rebatizava os índios que haviam sido batizados na fé cristã, ordenava "bispos" de sua religião e distribuía nomes de santos aos seguidores da Santidade.

No sertão do Jaguaribe, foi erguida uma grande maloca com cruzes fincadas à porta. Dentro havia uma figura humana de pedra de uns 70cm de altura que era chamado de Tupanasu, ou seja, Deus Grande. Os índios dançavam e fumavam ao redor dessa imagem ao mesmo tempo em que faziam orações cristãs.

Um detalhe: Antônio, o Papa Tupinambá, era casado. Sua esposa chamava-se Santa Maria Mãe de Deus e chefiava o culto na Santidade de Jaguaribe. Conforme as palavras do professor de história Ronaldo Vainfas: "... na Santidade do Jaguaribe, catolicismo e mitologia tupinambá se mesclavam de maneira formidável: o Papa era Tamandaré, a Virgem Maria era casada com o Papa, a cruz e o ídolo se revezavam na devoção dos índios, rosários eram desfiados, maracás chacoalhados. Os membros da Santidade canibalizaram o catolicismo para revigorar suas tradições."

A Santidade do Jaguaribe foi destruída em 1585. O líder Antônio sumiu sem deixar rastros. Sua esposa e outros líderes foram desterrados para Portugal e os fiéis foram escravizados.

 

Para saber mais:

- A Heresia dos Índios: Catolicismo e Rebeldia no Brasil Colonial; de Ronaldo Vainfas
- artigo: "Santos e Rebeldes", de Ronaldo Vainfas; publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional #1, de julho/2005





5. Atualizações no site Iandé

 

A-) Foram acrescentadas algumas peças no Museu Virtual da loja Iandé.


As fotos de cada peça estão nos links a seguir:

- Tipóia de carregar crianças, dos índios Kaiabi

- Pulseira de criança, dos índios Enawenê-Nawê

 
 
Iandé - Casa das Culturas Indígenas : rua Augusta 1.371 , loja 07 - Galeria Ouro Velho - São Paulo
Horário de funcionamento:   
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