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Boletim de Histórias - número 15

Índice

1. Introdução: Os índios Xikrin
2. História dos Xikrin (segundo os próprios índios)
3. História dos Xikrin (segundo os não-índios)
4. Artes dos Xikrin: pintura corporal e arte plumária
5. Histórias Curtas

 

1. Introdução: Os índios Xikrin

crianças xikrin - foto de isabelle vidal giannini
crianças Xikrin preparadas para festa de nominação;
fotos de Isabelle Vidal Giannini,
do livro "Grafismo Indígena", de Lux Vidal

 

Nas últimas semanas jornais, rádios e televisões têm noticiado (mais) um conflito entre índios e não-índios. A empresa de mineração Vale do Rio Doce reclamou que indígenas da etnia Xikrin, do Pará, entraram na área da mineradora e impediram a empresa de ganhar dinheiro. Por sua vez, os Xikrin solicitam recursos para compensar o estrago que a atividade de mineração faz na área onde vivem.

É difícil entender o que está acontecendo de verdade, apenas pelo noticiário. Há algumas entrevistas com diretores da Vale do Rio Doce, mas nenhuma palavra dos Xikrin. Ficamos sem saber sua versão do fato. Não sabemos quem são eles, o que pensam, o que realmente querem... nada disso foi publicado.

Esse boletim da Iandé apresenta um pouco da história, costumes e artes dos índios Xikrin.

No meio da desinformação apresentada pela grande imprensa sobre esse caso, apenas um comentário se salvou: a coluna de Marcelo Beraba, ombudsman do jornal Folha de São Paulo. O jornalista, que é pago para criticar o próprio jornal onde trabalha, apontou em seu texto a distorção que acontece na cobertura jornalística de fatos distantes dos grandes centros, como esse conflito que envolve os Xikrin e a Vale do Rio Doce.

O texto, cujo título é "O Pará é logo ali", está publicado no endereço http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ombudsma/om0511200602.htm (só para assinantes do UOL) .

Também pode ser lido por qualquer pessoa no endereço do site Observatório da Imprensa: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=406VOZ001

 

 

2. História dos Xikrin (segundo os próprios índios)

Os índios Xikrin contam que seus antepassados viviam no céu. Um dia, dois meninos estavam caçando tatu e cavaram tão fundo que abriram um buraco no céu. Lá de cima, eles viram o mundo aqui de baixo, acharam bonito e chamaram os outros índios.

Eles fizeram uma longa corda, unindo fibras, laços e cordões de toda a aldeia; e desceram para viver na Terra. Não vieram todos os índios. Alguns decidiram ficar no céu, e as luzes das estrelas que vemos hoje em dia são as fogueiras que esses índios fazem lá.

Os indígenas que desceram viviam todos juntos até que um dia descobriram uma grande árvore, às margens do rio Tocantins, da qual nasciam diversas espigas de milho. Eles derrubaram a árvore para plantar as sementes, porém à medida que recolhiam os grãos do milho, começaram a falar línguas diferentes, e se separaram em diversas tribos distintas.

Uma dessas tribos chamava-se mebengokrê. Os não-índios os chamam de "kayapós". Certo dia os mebengokrê faziam uma cerimônia de iniciação quando houve um desentendimento entre os homens mais novos e os mais velhos. O grupo se dividiu em outros menores. O grupo que foi viver mais ao norte deu origem aos índios Xikrin de hoje.


Para saber mais:
- Koikwa, um buraco no céu ; de Regina Santos, Angélica Torres e Isabelle Vidal Giannini

 

 

3. História dos Xikrin (segundo os não-índios)

Até o fim do século XIX, os não-índios recebiam apenas informações imprecisas sobre o que acontecia em certas regiões de Mato Grosso e Pará. Sabiam que ali havia alguns grupos de índios guerreiros, que não usavam arco e flecha, mas apenas bordunas para golpear os adversários. Os homens brancos chamavam a esses índios de "kayapós".

borduna dos índios kayapo
borduna de madeira, dos índios Kayapó

 

O primeiro contato permanente entre não-índios e os Kayapós aconteceu somente em 1890, onde hoje fica a cidade de Conceição do Araguaia, no Pará. Um grupo Kayapó, apelidado de "pau d'arco", cansou de lutar e recebeu os homens brancos de maneira amigável. São deles as primeira informações confiáveis sobre os demais grupos Kayapós; inclusive os Xikrin, que viviam ao norte da região. Os índios contaram que havia outros Kayapós espalhados nas matas da região que evitavam os não-índios. Os "pau d'arco" foram extintos, quarenta anos depois do contato, por doenças e por conflitos com os colonos que chegavam à região.

índio kayapo pau d'arco
índio Kayapó "pau d'arco": grupo extinto
foto do livro "História dos índios no Brasil"

 

Na mesma época, fim do século XIX, os Xikrin fugiram dos colonizadores brancos e rumaram para o norte, na região onde vivem até hoje. Lá só voltaram a encontrar os brancos no início da década de 60. Ocorreram muitas mortes por causa de doenças mas desde então sua população cresce de forma constante.

Os índios Kayapó dividem-se em vários sub-grupos: Gorotire, Metutire, Mekrãgnoti, Xikrin, etc... Todos eles falam línguas semelhantes, possuem costumes e mitologia em comum, e chamam a si próprios de mebengokrê. Cada um desses sub-grupos se identifica com um segundo nome, relativo ao sub-grupo. Mais ou menos como um não-índio que se identifica como brasileiro e também como carioca, ou gaúcho, ou mineiro, etc... Os índios Xikrin chamam a si próprios de "putkarôt". Dentro da família Kayapó, os Xikrin são os índios com costumes e língua mais diferentes em relação aos demais sub-grupos. Estima-se que a separação entre eles e os demais Kayapós aconteceu no início do século XVIII.

 

Para saber mais:
- texto: "Os Mebengokre Kayapó: História e Mudança Social"; escrito por Terence Turner e publicado no livro "História dos índios no Brasil"

 

 

4. Artes dos Xikrin: Pintura Corporal e Arte Plumária

A pintura corporal é a mais importante manifestação artística entre os índios Xikrin. Em uma de suas histórias, uma estrela desce à terra e transforma-se em mulher só depois que tem o corpo pintado com jenipapo. Os recém-nascidos também são pintados assim que perdem o cordão umbilical.

A pintura é uma atividade feminina. As mulheres se juntam a cada 8 dias mais ou menos em sessões de pintura coletiva, onde elas decoram o corpo umas das outras. Utilizam as mãos e lascas de taquara.

livro: grafismo indigena
pintura facial em Kukreiti, índia Xikrin
(foto de Vincent Carelli para a capa do
livro "Grafismo Indígena" de Lux Vidal)

 

Desde crianças, as meninas pintam suas bonecas. Aos 10 anos podem pintar seus irmãos menores e quando ganham o primeiro filho, gastam horas e horas pintando a pele do bebê. É uma demonstração de carinho para com a criança. A pintura realizada no bebê é livre, mas para adultos há padrões mais rígidos, ligados à idade da pessoa e à ocasião social.

meninas xikrin e bonecas de plástico
meninas Xikrin com bonecas de plástico,
compradas na cidade de Marabá,
mas devidamente pintadas com jenipapo
(foto do livro Grafismo Indígena, de Lux Vidal)

 

Também os adornos feitos pelos Xikrin se destacam pela beleza e pelo uso de cores vivas. Essas peças estão entre as mais cobiçadas por apreciadores de arte étnica, e museus do mundo inteiro mantém peças dos Xikrin em suas coleções. A seguir estão algumas delas:

braçadeiras infantis - indios xikrin
braçadeiras de criança, dos índios Xikrin
(nome indígena: pikà kam'yr)

 

colar de madrepérola - indios xikrin
colar de madrepérola,
para crianças, dos índios Xikrin

 

bandoleira infantil - indios xikrin
bandoleira de criança dos índios Xikrin
(adorno vestido de atravessado ao corpo)

 

labrete infantil - indios xikrin
adorno labial de criança, índios Xikrin
(usado em um furo feito sob o lábio inferior)

 

cocar kruwapu - indios xikrin
cocar masculino, índios Xikrin
(nome indígena: kruwapu)

 

Para saber mais:

- Grafismo Indígena ; de Lux Vidal
- Viagem ao mundo indígena ; de Luís Donisete Benzi Grupioni
- Kaiapo: materielle kultur - spirituelle welt ; de Gustaaf Verswijver - Museum für Völkerkunde de Frankfurt

 

5. Histórias Curtas

As casas da aldeia dos índios Xikrin formam um círculo. O local onde a aldeia é construída é escolhido por um xamã, que marca o centro do pátio com um maracá. Esse maracá representa o centro do mundo.

aldeia xikrin
aldeia Xikrin (foto do livro Habitações Indígenas)

 

Os homens Xikrin mudam-se para a casa de suas esposas quando casam-se.

Os Xikrin apreciam carnes gordas, como anta, porco do mato, jabuti, etc... Também comem peixes mas sofrem hoje em dia com a diminuição da pesca, pois as nascentes dos rios que cortam seu território estão fora da área indígena e passam por regiões de garimpo e fazendas. As águas chegam já poluídas à área dos Xikrin.

A água é um elemento de criação para os Xikrin. A imersão em água está relacionada ao amadurecimento do indivíduo. E foi um espírito das águas quem ensinou a cura das doenças aos índios.

Segundo os Xikrin, a parte leste do mundo é limitada por uma gigantesca teia de aranha. Além dela vive um Gavião-Real que é responsável pela iniciação dos xamãs Xikrin. A ave fura a nuca dos índios e aqueles que sobrevivem ganham poderes espirituais.

As danças e cantos dos Xikrin recuperam o tempo mítico, e recriam a energia necessária para a continuidade e a estabilidade da floresta onde vivem. (E quem há de dizer que não é verdade ?)

maraca dos índios xikrin
maracá dos índios Xikrin (nome indígena: ngoi toit)

 
 
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