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Boletim de Histórias - número 16

Índice

1. Introdução: Heróis Civilizadores Indígenas
2. Maíra (segundo os índios Kaapor)
3. Kanãxiwé: herói dos índios Karajá
4. Kisêdjê: índios sem heróis
5. Atualizações no site

 

1. Introdução: Heróis Civilizadores Indígenas

 

Mavutsinin, Maíra, os gêmeos Kanyeru e Kamé, Tsorá...

Esses nomes são desconhecidos para a grande maioria das pessoas, porém todos eles são grandes heróis segundo a história e a religião de algumas etnias indígenas que vivem no Brasil. Todos eles, nos tempos antigos, puseram ordem no mundo, criaram alguns animais e plantas, ensinaram coisas úteis aos índios e, as histórias que protagonizaram, passaram a servir de exemplo para a filosofia e comportamento dos grupos indígenas que cultuam esses heróis.

Mavutsinin - para os índios do Alto Xingu; Maíra - para vários índios de língua tupi; os gêmeos Kanyeru e Kamé - para os índios Kaingang; e Tsorá - para os Apurinã; são todos tão respeitados quanto o Profeta Maomé - para os muçulmanos; Jesus - para os cristãos; Sidarta Gautama - para os budistas e tantos outros personagens, tantos quanto a variedade que existe entre os grupos humanos.

Há um ponto em comum entre todos esses heróis das histórias dos indígenas e dos não índios: todos possuem origem e características divinas, porém se aproximaram dos homens comuns, conviveram juntos e estreitaram a ligação entre homens e deuses.

Esse boletim da Iandé conta algumas histórias sobre dois desses heróis índios: Maíra e Kanãxiwé.

Para quem gostar do assunto, boletins anteriores da Iandé mostraram um pouco sobre dois outros heróis indígenas: Makunaíma (dos povos de Roraima) e Jurupari (dos índios do Alto Rio Negro). Esses boletins podem ser acessados nos endereços:

http://www.iande.art.br/boletim006.htm - sobre Makunaíma, e

http://www.iande.art.br/boletim011.htm - sobre Jurupari

 

 

2. Maíra - segundo os índios Kaapor

 

Maíra aparece nas histórias de vários povos indígenas de língua tupi: como os Tenetehara, Aikewara, os antigos Tupinambá, etc... As histórias a seguir foram registradas por Darcy Ribeiro, junto aos índios Kaapor (do Maranhão).

 

Maíra é bom. Quando ele andava pelas matas, os Kaapor podiam vê-lo. Ele tinha tudo e não precisava trabalhar. Fazia um arco e o arco ia caçar sozinho pra ele. Os potes iam buscar água para Maíra e os machados trabalhavam na roça sozinhos. Foi Maíra quem ensinou os Kaapor a fazer seus cocares.

 

arte plumária kaapor - bienal de são paulo 1983
Arte Plumária dos índios Urubu-Kaapor,
peças expostas na Bienal de São Paulo em 1983
do alto à esquerda, em sentido horário: cocar Akangatar,
colar-apito masculino Awa-Tukaniwar, labrete masculino Rembé-Pipó
e testeira Akang-Putir ( fotos do catálogo:
Exposição Arte Plumária do Brasil - 17ª Bienal de São Paulo)

 

Maíra e o Urubu-Rei eram muito amigos, e moravam em casas próximas. Um dia, Maíra levou carne de caça para seu amigo, mas o Urubu-Rei não comeu a carne. Deixou ela apodrecer para comer só os bichinhos.

Maíra ficou zangado e os dois brigaram. Quando o herói saiu para caçar novamente, o Urubu-Rei roubou o fogo de Maíra e voou para o céu. Os índios não podiam mais comer porquê a carne estragava, e todos passavam muito frio à noite.

Maíra foi para a mata, ficou invisível e transformou seu corpo em uma anta grande e podre, cheia de bichos. Os urubus desceram do céu, preparados para um banquete. O Urubu-Rei veio também e trouxe o fogo. Maíra não disse nada, ficou só olhando, esperando o fogo ficar grande, até que saltou no meio das aves e gritou com elas. Todas voaram assustadas e Maíra ficou com o fogo.

Maíra voltou à aldeia mas não ficou satisfeito, pois podiam roubar o fogo novamente. Ele foi até a mata, pegou o cipó tata-yra, e girou o cipó sobre um pedaço de madeira até fazer fogo. Não precisava mais cuidar do fogo, pois a mata estava cheia daquele cipó. Depois Maíra ensinou isso para os outros índios.

Maíra também transformou os veados e jabutis em caça para os índios (antigamente eram os veados que matavam os homens), e também Maíra que levantou o céu, que ameaçava cair e esmagar toda a terra.

 

Para saber mais:
- Diários Índios: os Urubus-Kaapor ; de Darcy Ribeiro
- Uirá sai à procura de Deus ; de Darcy Ribeiro

 

 

3. Kanãxiwé, herói dos índios Karajá

 

Foi Kanãxiwé quem levou os índios Karajá para o local onde moram hoje. Foi ele também quem deu aos índios o fogo, a mata e a chuva. Kanãxiwé tomou os adornos plumários do Urubu-Rei (ou o Jaburu, em outras versões), entre eles o tradicional cocar lahetô.

 

arte plumária dos índios Karajá, exposta na Bienal de São Paulo em 1983
Arte Plumária dos índios Karajá,
peças expostas na Bienal de São Paulo em 1983
à esquerda: cocar "lahetô", à direita brincos femininos
( fotos do catálogo:
Exposição Arte Plumária do Brasil - 17ª Bienal de São Paulo)

 

Kanãxiwé e os outros Karajá viviam com muita preguiça, porquê era sempre noite. Naquela época não existia o dia. A esposa do herói reclamou - mas reclamou tanto - que Kanãxiwé levantou de sua rede e foi falar com Rãrãresá, o Urubu-Rei.

Kanãxiwé pediu a ele a luz das estrelas, mas achou a claridade fraca. Pediu a lua, mas achou a luz também fraca. Então pediu o sol, mas o sol passava tão rápido e iluminava a terra por tão pouco tempo, que os índios continuaram irritados.

Então Kanãxiwé pulou na perna do sol enquanto ele passava, e o forçou a andar mais devagar. É assim até hoje.

 

Para saber mais:
- Contos Indígenas Brasileiros ; de Daniel Munduruku

 

 

4. Kisêdjê: índios sem heróis

Os índios Kisêdjê, também chamados por Suyá pelos não-índios, vivem no Mato Grosso, no Parque do Xingu. Os Kisêdjê têm aparecido regularmente na mídia nos últimos meses, pois são eles que aparecem junto com a modelo Gisele Bündchen em comerciais da sandália Ipanema da empresa Grendene, ligados a uma campanha do Instituto Socioambiental pela preservação das nascentes do rio Xingu (projeto Y Ikatu Xingu: Salve a Água Boa do Xingu).

Diferente da maioria dos grupos indígenas, os Kisêdjê contam que sua sociedade não foi estabelecida por um herói cultural, mas aconteceu em uma série de episódios envolvendo homens comuns. A cultura Kisêdjê formou-se através da apropriação de traços específicos de animais e de outros grupos indígenas.

Na história Kisêdjê, o fogo foi obtido com a onça. O milho e a agricultura foi aprendido com um camundongo.

Já o sistema de nomes cerimoniais foi tomado de índios inimigos que viviam embaixo da terra. As canções também foram aprendidas com inimigos míticos, e também com índios Kisêdjê que transformaram-se em veados e porcos-do-mato.

Os índios contam que à certa altura, encontraram um povo muito parecido com eles mesmos, mas que eram canibais. Com esses índios, os Kisêdjê aprederam a usar grandes discos de madeira que colocam em um furo sob o lábio inferior; e também o costume de arranhar a pele para uso medicinal e ritual.

A visão que os Kisêdjê têm de si mesmos é de uma sociedade que escolhe para si, somente o que há de bom e bonito em outros grupos.

 

Para saber mais:
- site do Instituto Socioambiental: www.isa.org.br
- site do projeto Y Ikatu Xingu: Salve a Água Boa do Xingu: www.yikatuxingu.org.br/intro.html
- Texto: Ladrões, Mitos e História: Karl von den Steinen entre os Suyá; escrito por Anthony Seeger e presente no livro "Karl von den Steinen: Um século de Antropologia no Xingu"




5. Atualizações no site Iandé

 

A.) Na seção de textos, foi acrescentado um pensamento do antropólogo Darcy Ribeiro sobre o contato entre os brancos e índios (disponível no endreço http://www.iande.art.br/textos/respeito.htm)

 

B-) Foi acrescentada uma Panela de cerâmica, dos índios Suyá no Museu Virtual da loja Iandé.

 
 
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