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Boletim de Histórias - número 17

Índice

1. Introdução: Ulisses Pereira Chaves
2. Depoimento do Artista
3. Ulisses, por Lélia Coelho Frota


 

1. Introdução: Ulisses Pereira Chaves


"Se realmente acreditassem (em Deus), (vocês) caminhariam
mato adentro e escutariam às árvores, aos sapos e às pedras,
e lhes falariam, como eu lhes falo. E aprenderiam a escutar
a estas figuras vivas que eu faço com o barro e com minhas mãos."

Ulisses Pereira Chaves (1924-2006)

 

Ulisses Pereira Chaves foi um dos maiores artistas do Brasil. Sua obra, em cerâmica, foi descrita como surrealista, mística, onírica; mas tais palavras não são suficientes. Ulisses dizia que suas criações estavam vivas, falavam. Da mesma forma que ele também falava com a terra e a escutava. Descrever sua obra em palavras é como descrever uma experiência religiosa: por melhor que seja o texto, o registro será incompleto.

Eu o conheci pessoalmente, em Córrego Santo Antônio onde ele morava. Uma região de acesso difícil, entre os vales dos rios Jequitinhonha e Mucuri, no norte de Minas Gerais. Ulisses raramente saia de seu sítio. Eu o encontrei pela primeira vez em uma trilha, na mata próxima à sua casa. Era um negro forte de olhar altivo e sério. Eu sabia que ele tinha quase 80 anos, mas aparentava menos.

Foi inesperado ser apresentado a ele. Eu nunca havia visto sua figura. Ulisses não se deixava fotografar.

Ele me recebeu muito bem em sua casa. Conversamos algum tempo no quintal, e ele me contou coisas sobre os humores do barro, sobre seus antepassados negros e índios, sobre as energias que circulavam por aquele mundo... Eu me senti muito pobre perto daquele homem. Com minha educação científica e racional, eu não sabia de coisas tão interessantes para dizer a ele, quanto o que ele me contava. Ele percebia coisas sobre o mundo, que eu não consigo perceber até hoje.

Então me lembrei de algo para contar. Disse a ele: "Seu Ulisses, eu conheço uns índios que moram em Roraima que também fazem cerâmica. Quando eles sobem a montanha para pegar o barro, eles levam uma peça já cozida. Pronta. Eles tiram o barro cru da terra e jogam a peça pronta no buraco que abriram. Fazem uma cerimônia. É pra agradecer à terra por aquele barro que recolheram."

Ele respondeu: "Ah é verdade. Eu conheço um índio Macuxi que me contou isso."

Eu fiquei bastante surpreso. Realmente eu me referia a um costume dos índios Macuxi mas não mencionara o nome desse povo. Como que essa informação havia chegado até Ulisses Pereira, que não sabia ler e escrever, e vivia naquele fim de mundo, sem energia elétrica ?Perguntei a ele: - Puxa, onde o senhor se encontrou com um índio Macuxi ?

- "Ele aparece para mim aqui. Em meus sonhos." foi sua resposta

 

A seguir estão fotos de algumas peças de Ulisses, um (raro) depoimento do artista, e uma descrição de sua obra pela escritora Lélia Coelho Frota, uma moça que tem muito a dizer sobre criações de fontes populares.

Esse boletim é uma modestíssima homenagem a Ulisses Pereira Chaves. Com sua morte, na última semana de 2006, a cultura tradicional ficou muito - mas muito - mais pobre.

 

 

2. Depoimento do Artista

 

O depoimento abaixo, de Ulisses Pereira Chaves, foi concedido em 1989 a César Aché. Está registrado no livro "Pavilhão da Criatividade: Memorial da América Latina: Brasil", de Maureen Bisilliat

 


"Artesão tem de mudar, mudar a experiência, a palavra tem de ser nova.

Eu só vou para frente, não volto para trás; é como a água - só a água viva é que vai para frente.

A terra é viva, a montanha é viva, o barro é vivo, o fogo também é.

Eu converso com as aves, com as plantas, a natureza, com as montanhas, a lua cheia. A natureza está chorando, as árvores me respondem como ela está, como está vivendo. Também contam sua história. Hoje, a natureza ruim está mais adiantada do que a natureza boa.

É um dom de nascimento, conversar com as coisas invisíveis, aprendi com Deus; também tenho meu mistério. Difícil é conversar com o Sol, fiquei andando de um lado para outro até conseguir. Só converso com ele quando passa uma nuvem na frente.

Trabalho com qualquer barro, converso com ele e a peça sai. Se o barro está fraco, ele fala, diz para onde vai, de onde vem. A Lua domina o barro.

Na Lua minguante, às vezes fica fraco, na lua nova, a energia é demais, as peças explodem, estalam.

A Lua domina tudo.

O lugar onde trabalho é um santuário, aqui acontece um milagre, um mistério, as peças vão nascendo, tem aqui coisas invisíveis, uma espécie de respiração que existe. Quem entrar aqui, se ficar descalço por mais de uma hora, não dormir e se for atento, aprende, vira artista. Criar, puxar oxigênio e energia. O corpo, os pés andando na terra, puxam esta energia, que faz fazer as peças. Eu tiro energia das estrelas, da terra. Sem animal e sem planta a energia vai se perdendo.

A estrela faz sarar."

 

 

 

3. Ulisses, por Lélia Coelho Frota

As palavras a seguir são um fragmento do texto que Lélia Coelho Frota escreveu sobre Ulisses Pereira Chaves, em seu livro Pequeno Dicionário da Arte do Povo Brasileiro, século XX

 

"Ulisses constituiu em torno dele uma oficina familiar, cujos membros levam a marca da sua invenção, mas com modos diferenciados de autoria.

Figuras zoomorfas, antropomorfas, entes sobrenaturais de um único pé, como o Urômelo da tradição greco-romana, outros com inúmeras cabeças, minotauros, lobisomens, o imaginário fantástico de Ulisses veio se acrescentando de novos personagens com o tempo.

Ao compararmos os seus trabalhos das décadas de 70, 80 e 90, fica também nítida a busca de um crescente apuro formal, a consciência da pesquisa da matéria em função do resultado plástico. As últimas criações de Ulisses, iniciadas nos anos 90, são as extraordinárias cabeças resolvidas com incrível economia de elementos, o nariz unindo-se à lisura de uma cabeleira que poderia ser o capacete de um guerreiro homérico, a boca entreaberta proferindo as palavras secretas do pacto feito ente o homem e a natureza.

Expressionista ? Surrealista ? Ou participante de uma experiência outra, que convive com o sobrenatural com a maior naturalidade, considerando-o mais verdadeiro do que os fatos perceptíveis por todos nós no dia-a-dia ?"

 

Para saber mais:
- O último artista. Arte popular e cultura digital ; de Eduardo Subirats - ensaio disponível no endereço http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq056/arq056_00.asp

- Pequeno Dicionário da Arte do Povo Brasileiro: Século XX ; de Lélia Coelho Frota

- Pavilhão da Criatividade: Memorial da América Latina: Brasil ; de Maureen Bisilliat

- Artefatos de Gênero na Arte do Barro ; de Sônia Missagia Mattos



Locais onde estão expostas algumas obras de Ulisses Pereira Chaves:

- Museu Casa do Pontal: Estrada do Pontal 3295 - Rio de Janeiro - www.popular.art.br/museucasadopontal

- Museu do Folclore Edison Carneiro: rua do Catete, 179 - Rio de Janeiro - www.museudofolclore.com.br

- Centro Cultural de São Francisco: praça São Francisco, s/n - João Pessoa - Paraíba

 
 
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