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Boletim de Histórias - número 18

Índice

1. Introdução: Aldeias Circulares
2. Descrição de uma aldeia de índios Kanela
3. Relações dentro da aldeia circular
4. Atualizações no site

 

1. Introdução: Aldeias Circulares

 

A construção e organização de uma aldeia indígena varia conforme os costumes de cada etnia.

Há índios, como os Yanomami (do norte da região amazônica), que levantam uma única e gigantesca casa onde moram juntos todos os habitantes da aldeia. Outros, como os Wajãpi (do Amapá) e os Rikbaktsa (do Mato Grosso) preferem casas menores, onde vivem apenas uma ou duas famílias, e estabelecem essas casas distantes umas das outras, reunindo-se aos outros índios de seu grupo apenas em ocasiões específicas.

Alguns grupos indígenas da região central do Brasil, principalmente os que falam línguas do tronco linguístico Jê, constroem suas casas formando um círculo. As casas permanecem na periferia da aldeia limitando a circunferência e o centro do círculo transforma-se em um local público.

Quando os índios Kayapó (do Mato Grosso e Pará) iniciam a construção de uma dessas aldeias circulares, marcam o centro do círculo com um maracá, para então iniciar a construção das casas em volta dele.


Maracá "Ngôtix", dos índios Kayapó-Gorotire, do Pará

 

Esse boletim da Iandé mostra um pouco das aldeias circulares construídas pelos índios Kanela, do Maranhão. E como a geometria dessas aldeias influencia a rotina dessas comunidades.

 

 

 

2. Descrição de uma aldeia de índios Kanela

 

Os índios Kanela vivem no cerrado do Maranhão. Eles constroem suas aldeias em solo plano e não-pedregoso, próximas a córregos d'água.

Suas casas são feitas tradicionalmente com toras de madeira cobertas com folhas das palmeiras inajá ou babaçu. São casas retangulares com portas nas paredes que correspondem aos lados maiores do retângulo.

Os locais em que cada casa é construída, são estabelecidos de maneira a formar um círculo. Bem no centro desse círculo os Kanela estabelecem um pátio, um local de encontro entre todos os moradores. Da porta de cada casa da aldeia sai um caminho reto que vai diretamente a esse pátio central. Como as casas estão dispostas de maneira circular, a distância de qualquer uma delas até o pátio central é sempre igual. Esses caminhos que ligam cada casa ao pátio central são chamados "càà ma pry".

Além desses caminhos até o centro da aldeia, há um outro caminho que interliga todas as casas, como se estivesse "fechando" o círculo. Esse caminho entre as casas é chamado de "kricape". As aldeias kanela medem de 150 a 200 metros de diâmetro.

Visto do alto, a aldeia Kanela se parece com uma pizza, com os pedaços recém cortados.

 

arte plumária kaapor - bienal de são paulo 1983
Capa do disco "Ampó-Hu", dos índios Krahò
com vista aérea de uma de suas aldeias.
As aldeias dos índios Krahò são construídas da
mesma maneira que as aldeias dos índios Kanela.

 

 

 

3. Relações dentro de uma aldeia circular

 

Quando um homem Kanela se casa, ele passa a morar junto com a família de sua esposa. Imagine um casal que tenha duas filhas e um filho. O filho ao se casar irá sair da casa onde nasceu para a de sua esposa. As filhas, ao contrário, após os casamentos, trazem mais gente para o lar onde nasceram. Quando o espaço torna-se pequeno para tantas famílias, os Kanela levantam uma casa próxima ao lar original, na mesma linha que demarca a circunferência externa da aldeia.

Esse costume faz com que existam dentro da aldeia, alguns conjuntos de casas ligadas entre si por laços de parentesco feminino: mães, filhas, tias, avós, sobrinhas, todas da mesma família. A esse conjunto de casas de "parentes", os Kanela chamam de "rua", usando o termo que tomaram dos não-índios.

Com os homens acontece o inverso: nessas casas interligadas há homens vindos de diferentes famílias de toda a comunidade, que estabelecem alianças entre si e suas diferentes famílias para que convivam todos juntos. Essas alianças dão estabilidade política a toda a aldeia.

Todo o índio Kanela têm a sua "rua", ou seja, um conjunto de casas onde moram uma sequência de mulheres parentes. Para andar por essas casas, o índios utiliza o caminho "kricape", o caminho que delimita o círculo.

Já quando o índio vai a uma casa de não-parentes, ele utliza os "càà ma pry", ou seja, os caminhos que passam pelo centro da aldeia - pelo pátio central - mesmo que esse caminho seja mais distante do que se ele fosse pelo caminho "kricape" que delimita o círculo. É como se o pátio central formalizasse as relações entre as casas que não possuem parentesco entre si.

Esse pátio é o local onde se tomam as decisões políticas da aldeia. É o local público onde tudo é visto e as discordâncias resolvidas. É interessante notar que todas as casas têm o mesmo peso social dentro da aldeia. E estão todas a mesma distância do pátio central, ligadas pelo caminho "càà ma pry".

E por quê as aldeias dos Kanela, e também de outros grupos vizinhos como os índios Krahò, Apinajé, Gavião; têm esse formato circular ? O antropólogo Julio Cezar Melatti presenciou um discurso em que um líder dos índios Krahò repreendia os demais habitantes que não estavam ajudando no plantio coletivo das roças com as seguites palavras: "Por quê as casas estão em círculo ? Por quê nos reunimos no pátio ?"

Melatti associou a forma redonda da aldeia com a solidariedade que os moradores devem manter entre si para o bom funcionamento da comunidade. Afinal, diferente dos não-índios que consideram a "família" como o elemento fundamental de sua sociedade, os Kanela consideram que fundamental é a "aldeia".

 


Cinto "thû", dos índios Kanela-Ramkokamekrá

 

Para saber mais:
- texto: "Uma aldeia Timbira" ; de Maria Elisa Ladeira
(publicado no livro "Habitações Indígenas" de Sylvia Caiuby Novaes
- texto: "Por que a aldeia Krahò é redonda ?" ; de Julio Cezar Melatti
(publicado no informativo FUNAI ano III nº 11/12 de out/74)

 


4. Atualizações no site Iandé

 

A-) Foi acrescentada uma Jarreteira (adorno usado nos joelhos), dos índios Kanela-Ramkokamekrá no Museu Virtual da loja Iandé.

 
 
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