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Boletim de Histórias - número 23

Índice

1. Introdução: encontro entre índios e não-índios
2. A origem do homem branco, segundo os índios Xavante
3. A origem do homem branco, segundo os índios Kayapó
4. A origem do homem branco, segundo os índios Desana
5. Arte indígena com materiais industrializados
6. Atualizações no site

 

1. Introdução: encontro entre índios e não-índios

Quando os primeiros navegadores europeus chegaram ao continente americano, encontraram os índios, que já viviam naquelas terras.

O encontro entre índios e não-índios fez surgir duas questões fundamentais, que são discutidas até os dias de hoje. São elas:

 

1 - "De onde surgiu esta gente tão estranha ?" - perguntaram-se os homens brancos; e...

2 - "De onde surgiu esta gente tão estranha ?" - perguntaram-se os índios.

 

A crença geral na Europa - naquela época - é que todos os seres humanos eram descendentes de Adão e Eva. (A teoria da evolução das espécies de Darwin seria publicada somente 300 anos mais tarde) . Os europeus começaram a discutir se os indígenas eram realmente seres humanos e o grau de parentesco entre os índios e Adão e Eva. A discussão durou 40 anos, até que o Papa Paulo III, em 1537, proclamasse que... sim, os índios também eram gente.

Hoje em dia, o que é defendido por cientistas não-índios é que a maioria dos antepassados dos indígenas migrou da Ásia para a América há milhares de anos. Não há consenso sobre a época em que isto ocorreu.

Os índios também discutiram, dentro de suas crenças, o surgimento do homem branco no mundo. As conclusões variaram conforme a mitologia de cada povo. Em algumas histórias índios e não-índios viviam juntos e se separaram. Em outras o homem branco é resultado da união de seres não-humanos, ou de uma maldição ou da quebra de regras de comportamento dentro da sociedade indígena.

Este boletim da Iandé traz algumas histórias indígenas sobre o surgimento do homem branco na terra.

Este fascinante assunto, o surgimento dos não-índios e o contato entre as duas culturas pelo ponto de vista indígena, já rendeu algumas obras-primas. Vale à pena vê-las. Aqui estão algumas delas:

1-) Pïrinop: Meu Primeiro Contato; filme de Mari Corrêa e Karané Ikpeng, que traz depoimentos atuais dos índios Ikpeng que participaram dos primeiros contatos com os não-índios na década de 60

2-) Pacificando o branco: Cosmologias do contato no Norte-Amazônico; livro organizado por Bruce Albert e Alcida Rita Ramos com diversos artigos sobre a estratégia de povos indígenas frente ao contato com o homem branco

3-) A História em Outros Termos; apresentação do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro para narrativas indígenas sobre o surgimento do homem branco, publicadas no site do Instituo Socioambiental. Disponível no endereço http://www.socioambiental.org/pib/portugues/indenos/evcapres.shtm

4-) Mitos (do livro "O Messianismo Craô); de Julio Cezar Melatti, que traz mais narrativas indígenas sobre o aparecimento do homem branco no mundo. Disponível no endereço http://www.geocities.com/RainForest/Jungle/6885/livro72/mess.htm

 

 

2. A Origem do Homem Branco, segundo os índios Xavante

Antigamente os índios Xavante eram nômades. Havia entre eles um menino que só pensava em comer. Ele nunca estava satisfeito e sempre queria mais e mais.

A mãe dele se irritou. Arrancou o próprio clitóris e deu ao menino que foi mastigando, mastigando: nhoim, nhoim, nhoim, nhoim.

À noite a barriga do menino cresceu e cresceu tanto que ele virou uma bola. Na manhã seguinte os índios seguiram viagem mas o menino não conseguia mais andar e ficou pra trás. Ele se arrastou pelo chão, fuçando nos restos de comida e chegou a um reguinho de água corrente onde bebeu muita água.

Os irmãos do menino voltaram para procurá-lo mas o encontraram cavando as margens do reguinho fazendo um barulho enorme. O menino disse aos irmãos: "Podem seguir seu caminho e esquecer de mim."

Depois de um tempo os irmãos voltaram para ver o menino e o pequeno córrego se transformara em um grande rio, de margens muito altas. O barulho de terra desbarrancando continuava muito forte. O menino barrigudo estava casado. Ele banhou a cabeça dos irmãos com a água do rio e os cabelos dos Xavante cresceram fortes e bonitos. Os irmãos chamaram os outros parentes e todos vieram ter os cabelos lavados pelo menino barrigudo.

Depois de um tempo, os Xavante quiseram visitar a casa do menino barrigudo novamente, mas a outra margem do rio estava muito longe. Já não dava mais pra atravessar. Os índios ouviram o barulho de desmoronamento ainda mais forte e também barulho de fogo na mata. Voltaram e disseram: "Agora ele tem roupas e tem arma de fogo... Ele se afastou para sempre do nosso povo."

 

Para saber mais:
- Wamrêmé Za'ra: Nossa Palavra - Mito e História do Povo Xavante; pelos anciões Sereburã, Hipru, Rupawê, Serezabdi e Sereñimirãmi

 

 

3. A Origem do Homem Branco, segundo os índios Kayapó

Uma vez uma lagarta entrou na aldeia dos índios Kayapó e fez amor com uma jovem. Bem cedo a lagarta saiu e foi dormir em cima da árvore. Os pais da jovem descobriram e queimaram a árvore onde estavam várias lagartas, porém os índios puseram pouca lenha e algumas delas escaparam por um rio. As lagartas fundaram uma aldeia e se transformaram em homens brancos.

A jovem índia ficou grávida e deu à luz a um menino. Todas as tardes o menino se transformava em várias lagartas que dormiam ao lado da mãe.

Os pais da jovem queimaram as lagartas novamente, porém ela acordou e salvou uma delas. A jovem e seu filho foram embora da aldeia e juntaram-se à aldeia dos homens brancos.


Para saber mais:
- Livro de História Volume I: Parque Indígena do Xingu; publicação do Instituto Socioambiental de março/1998, resultado do Curso de Formação de Professores Indígenas do Parque Indígena do Xingu para o Magistério

 


4. A Origem do Homem Branco, segundo os índios Desana

No princípio do mundo os ancestrais de todas as pessoas que existem na terra viajavam pelo Rio Negro, no norte do Amazonas, dentro da barriga de um barco-cobra. Quando o barco chegasse na Cachoeira de Ipanoré, no rio Uaupés, todos se transformariam em seres humanos.

Quando os índios desembarcaram da canoa-cobra ganharam brincos, colares e outros enfeites abençoados pelo Avô do Universo. O ancestral do homem branco foi um dos últimos a sair do barco e não ganhou nada.

Os índios encontraram cinco cuias naquele local: a "cuia de gerar filhos", a "cuia de mel de tõkana" (para formar sangue), a "cuia de leite de mama" (para sustentar as futuras gerações), a "cuia de ar puro" e a "cuia dos remédios". Ao lado das cuias havia um chapéu e uma espingarda. Ao lado ainda havia outras duas cuias: a "cuia para ter pele branca" e a "cuia para mudar de pele quando for velho" (a cuia da vida eterna).

Os índios beberam das cinco primeiras cuias. O ancestral do homem branco também bebeu delas e depois foi beber a cuia da vida eterna, porém na borda dela havia escorpiões, aranhas e cobras e ninguém teve coragem de beber seu conteúdo. O ancestral dos brancos lavou-se na cuia para ter pele branca e ficou com a pele clara. Depois, como não havia ganho nada, pegou para si o chapéu e a espingarda.

Cada um dos ancestrais foi viver em um local diferente. O ancestral dos homens brancos partiu para o sul.


Para saber mais:
- A Mitologia Sagrada dos Desana-Wari Dihputiro Põrã: Coleção Narradores Indígenas do Rio Negro volume 2; de Diakuru e Kisibi

 

 

5. Arte Indígena com Materiais Industrializados

Após o contato com os homens brancos, os indígenas passaram a ter acesso a alguns materiais industrializados, que acabaram por incorporar em seus adornos. Em urnas funerárias indígenas do século XVII, desenterradas no norte do Pará, foram encontradas miçangas de vidro produzidas na Tchecoslováquia. Um caso curioso se deu entre os índios Wai Wai: quando os primeiros homens brancos alcançaram no fim da década de 40 as aldeias deste povo, na fronteira entre Brasil e Guiana, as mulheres já usavam saias feitas de miçangas industrializadas, que os índios trocavam com quilombolas do Suriname.

Os colares de miçangas de várias voltas, usados pelas índias do Alto Xingu são reconhecidos como "colares de homem branco". Exceto os colares de miçangas azul-escuras, chamados de "colares de índios". É que os índios do Alto Xingu, antes do contato com os não-índios, já trocavam miçangas desta cor com os índios Juruna, que as conseguiam dos não-índios.

 

tanga de sementes, índios Wai Wai tanga de miçangas,  índios Wai Wai
à esquerda: tanga de sementes; à direita: tanga de miçangas
índios Wai Wai, rio Mapuera, Pará

 

colares de miçanga, índios Mehinaku
colares de miçangas, índios Mehinaku,
Alto Xingu - Mato Grosso

 

tiaras, índios Krahò
à esquerda: tiara de sementes de capim; à direita: tiara de miçangas;
índios Krahò - Tocantins

 

cocar de plastico - indios Kayapó
cocar de plástico; índios Kayapó-Gorotire
à direita: detalhe dos recortes no formato de penas

 

colar de alumínio, índios Kayapó-Gorotire
colar de placas de alumínio, índios Kayapó-Gorotire - Pará

 

bandoleira infantil, índios Gavião-Parkatejê
bandoleira infantil de lã e miçangas;
índios Gavião-Parkatejê - Pará

 

adorno peitoral, índios Javaé
peitoral de miçangas e sementes;
índios Javaé, Rio Araguaia - Tocantins

 


cinto de plástico;
índios Marubo, vale do Javari - Amazonas

 


colar feminino com miçangas e medalhas de santinhos;
índios Krahò, Tocantins

 

 

6. Atualizações no site Iandé

 

A-) Foi acrescentada, no Museu Iandé, uma miniatura da escola indígena da aldeia guarani de Tenondé Porã, São Paulo

- Miniatura da escola indígena da aldeia de Tenondé Porã, índios Guarani, São Paulo

 
 
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