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Boletim de Histórias - número 24

Índice

1. Introdução: Canções que espantam os males do corpo
2. O cantador que cura
3. O que dizem os cantos
4. Potes de armazenar o chá da ayahuaska
5. Atualizações no site

 

1. Introdução: Canções que espantam os males do corpo

As sociedades indígenas utilizam-se de diversos métodos que auxiliam na cura de doenças.

Existem os pajés, que tratam de certas doenças através de transes espirituais. Há também índios que se utilizam de plantas medicinais, outros que enxergam as causas de alguns males através de sinais da Natureza, e hoje em dia existem muitos enfermeiros indígenas com conhecimento da medicina do homem branco; medicina que os próprios índios julgam mais apropriada no tratamento de determinadas doenças.

Entre os índios Marubo, do Amazonas, existem canções que ajudam na cura de doenças. Alguns indivíduos são especialistas em entoar estes cantos que curam, e são chamados quechitxo, na língua marubo.

Na década de 70, o antropólogo Julio Cezar Melatti presenciou algumas sessões de tratamento através destes cânticos terapêuticos quando esteve em aldeias dos índios Marubo e escreveu seu testemunho na Revista de Atualidade Indígena de jan/fev de 1977, uma publicação da FUNAI. Este boletim da Iandé é um resumo do relato de Melatti.

 

 

2. O Cantador que cura

Os índios Marubo vivem na bacia do rio Javari, no sudoeste do estado do Amazonas.

Os quechitxo, especialistas nos cantos de cura, cantam junto ao doente. Este se deita em uma rede e os cantadores sentam em volta dele, em banquinhos. Cantam curvados, com a mão direita sobre o joelho esquerdo e a cabeça apoiada na mão esquerda. São canções longas, entoadas a qualquer hora do dia e da noite, com intervalos de descanso, enquanto durar o período de crise mais aguda da doença. Nem todos os índios que cantam junto ao doente são quechitxo, alguns cantam apenas como auxiliares destes especialistas.

Antes dos cantos, os quechitxo preparam-se tomando o chá da ayahuaska e inalando um tipo de rapé.


tubo de guardar rapé, índios Marubo

 

Há ocasiões que os Marubo cantam sobre a boca de uma panela que contenha mingau de banana, que será depois tomado pelos doentes como remédio. Este mingau é ingerido também como prevenção contra certas doenças e até mesmo para evitar mordidas de cobras.

Os índios Marubo explicam que quando os quechitxo cantam, aproximam-se os espíritos Rewepei, Onisrãco e Sroma.

O espírito Rewepei vai atrás da alma do doente e tenta convencê-la a permanecer no corpo. Os Marubo acreditam que seus pajés possuem uma taboca de guardar rapé dentro da garganta. A voz grave e volumosa surge quando esta taboca está destampada e a voz fina é sinal da taboca tampada. É também o espírito Rewepei quem coloca esta taboca na garganta dos pajés. O antropólogo Julio Cezar Melatti registrou que esta informação é válida para os pajés Marubo, mas não pôde esclarecer se o mesmo acontecia com os cantadores quechitxo.

O espírito Onisrãco é o espírito da ayahuaska. Ele fica ao lado dos cantadores e canta junto com eles. Pode se transformar em diversos seres, como a onça, um pássaro, o fogo, o vento... O espírito Onisrãco é como o soldado que briga com a doença.

Os espíritos Sroma são dois espíritos femininos que também lutam contra a doença. "Sroma" significa "seio" na língua dos Marubo.

 

 

3. O que dizem os Cantos

Os cantos de cura dos índios Marubo dividem-se em três partes: como se forma o agente que originou a doença, como este agente atua no corpo da vítima e como este mal é combatido.

Julio Cezar Melatti recolheu um canto contra mordida de cobras. Ele começa pela narração de como surgiu a cobra, a partir da cabeça de um sapo morto:

- dois pingos de fogo formaram os olhos da cobra;
- os venenos de um outro sapo e o leite de uma taboca formaram o veneno da serpente;
- e o frio da terra e o calor de um terceiro sapo foram colocados também dentro da cobra.

A segunda parte do canto conta como a cobra se coloca na caminho da vítima e como o índio que é mordido fica com o calor da cobra na cabeça e o frio da terra nos pés.

"A terceira parte conta então como a cobra e seu veneno são combatidos. As duas Sroma e Onisrãco vêm cuidar da vítima. A cobra é espantada com fogo. As Sroma dão saúde à vítima; a saúde vai passando pelo corpo, tirando o peso do corpo, o escuro dos olhos, o veneno da cobra. A fumaça também espanta a cobra, jogando-a para fora do corpo da pessoa mordida. O vento da saúde leva a cobra por cima do mato. O doce da ayahuaska passa por dentro da cabeça do paciente, tirando a dor. A saúde desce para a barriga, curando. O frio da água, o frio da pedra, o frio da terra, o frio do pau, o frio da ayahuaska, entram no corpo da vítima; quando o frio entra a cobra vai embora; o espírito da ayahuaska (Onisrãco) corre atrás dela com o terçado, cortando-a. Ele tira do corpo da vítima o veneno, o dente, o pelo da cobra.

No cântico ainda se citam outros elementos que vêm socorrer o paciente: o azedo, o sangue da árvore, o sangue da ayahuaska. Convém notar que no cântico os efeitos da mordida da cobra são confundidos com a própria cobra ou com partes do corpo dela." (por Julio Cezar Melatti)


Para saber mais:
- Revista de Atualidade Indígena, ano I nº 2, jan/fevereiro, 1977 - publicação da FUNAI

 


 

 

4. Potes de armazenar o chá da ayahuaska

A cerâmica dos Marubo está entre as mais sofisticadas produzidas no Brasil. É uma cerâmica leve e em certas ocasiões decoradas com uma impressão em negativo. Depois que as peças são queimadas, as mulheres desenham elementos geométricos nas cerâmicas utilizando uma argila esbranquiçada, diferente daquela utilizada na construção da peça. As cerâmicas são então colocadas sobre um fogo brando que as deixa negras, com exceção dos desenhos feitos com a argila mais esbranquiçada que é retirada da peça após o esfriamento.

A seguir estão alguns potes pequenos de cerâmica, de variados desenhos, usados para guardar o chá da ayahuaska. São chamados Oni Chomo na língua dos Marubo.

 

pote de guardar ayahuaska - indios marubo

 

 

 

5. Atualizações no site Iandé

 

A-) Foi acrescentado na lista de discos de Música Indígena, um CD gravado pelos índios Irantxe, do Mato Grosso

- Jãli Pasanamapinãtã Mãlêta - Nós Cantamos Bonito: Cânticos Rituais do Povo Indígena Irantxe "Manoki"

 
 
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