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Boletim de Histórias - número 27

Índice

1. Introdução
2. Índios Kayapó
3. Índios Xetá

1. Introdução

Em maio de 2007 uma notícia incomum foi veiculada na mídia: descobriu-se, no sul do Pará, um grupo de 87 índios sem contato com os homens brancos.

Estes índios, todos da etnia Kayapó, viviam em uma área de floresta fechada e fugiam quando percebiam a aproximação de não-índios (garimpeiros, madereiros e grileiros). Fizeram assim por muito tempo, porém a mata em que podiam se esconder foi acabando e estes índios decidiram procurar abrigo em uma outra aldeia kayapó, a aldeia Capoto, onde vivem índios que já mantém contato com os homens brancos há algumas décadas.

O encontro entre os Kayapó da floresta e os Kayapó da aldeia Capoto deve ter sido comovente. Os da aldeia julgavam que seus parentes haviam sido mortos já há muito tempo e os receberam com alegria. Os mais velhos devem ter conversado sobre tempos antigos e os índios da aldeia devem ter falado sobre algumas coisas do mundo dos não-índios.

Dez dias depois, com bem menos destaque, uma outra notícia incomum foi divulgada: a morte do índio Tukanambá Xetá, em um hospital de Curitiba, por insuficiência respiratória. A notícia é incomum, infelizmente não pela morte de um índio, mas por se tratar de um índio Xetá. Tukanambá era um dos últimos 7 sobreviventes de seu povo. Com sua morte, restam hoje 6 índios Xetá.

Este boletim da Iandé fala sobre estas duas histórias: a dos índios Kayapó e a morte de Tukanambá Xetá, que apesar de separadas por 2.400 quilômetros, têm sua origem na mesma época: a primeira metade da década de 50. Talvez as duas histórias tiveram seu início exatamente no mesmo dia.

 

Para saber mais:
- Reportagens sobre os índios Kayapó isolados:
a-) na Agência Brasil: http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/06/01/materia.2007-06-01.3523471983/view
b-) na Folha Online: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u301566.shtml
b-) no Diário de Cuiabá: http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=287809&edicao=11832&anterior=1
c-) no Estado de São Paulo: http://clipping.planejamento.gov.br/Noticias.asp?NOTCod=358738

- Reportagens sobre a morte de Tukanambá Xetá:
a-) na FUNAI: http://www.funai.gov.br/ultimas/noticias/1_semestre_2007/Junho/un0604_003.html
b-) no Conselho Indigenista Missionário: http://www.cimi.org.br/?system=news&action=read&id=2611&eid=358

 

 

2. Índios Kayapó

amre-bé (*)

Não se sabe exatamente o que aconteceu naquele dia, na aldeia dos índios Mebêngokrê (também chamados Kayapó ou Txukarramãe por seus inimigos). É provável que todos os homens adultos tenham se reunido na casa central da aldeia para solucionar um grave problema: um grupo daqueles homens de pele muito clara invadira novamente o território dos Mebêngokrê. O que fariam os índios ?

A reunião demora, pois muitos homens querem falar. Um grupo defende que os Mebêngokrê devem atacar os homens pálidos, matá-los e ponto.

Um dos índios mais velhos argumenta que já fizeram isso no passado e nada adiantou, cada vez aparecem mais daqueles homens esbranquiçados. Este velho lembra de histórias antigas, que ouviu quando criança, do tempo em que os Mebêngokrê viviam entre dois grandes rios, foram atacados por muitos daqueles homens brancos e tiveram que fugir na direção em que o sol morre.

Um outro homem, com um largo botoque em sua boca, esbraveja que o brancos estão unidos com os índios Juruna, inimigos dos Mebêngokrê. Seu sobrinho porém, que esteve espionando o acampamento dos homens brancos, opina que desta vez está parecendo que eles não querem briga. Este jovem diz ainda que os Mebêngokrê não podem continuar fugindo para sempre. Outro velho lembra das doenças terríveis que os brancos trazem.

Não se sabe exatamente o que foi dito, mas é provável que a discussão tenha continuado por horas a fio...

Por fim, um dos líderes lembra da origem dos homens brancos: eles são filhos de uma lagarta que se uniu a uma índia Mebêngokrê e acabaram sendo expulsos da aldeia. Se são filhos de uma índia devem possuir um resquício de humanidade. Talvez os brancos não sejam tão selvagens quanto parecem. Os índios decidem fazer contato com os homens brancos: - "Vamos ouví-los e ver o que eles querem". E assim termina a reunião e todos voltam para suas casas.

Um dos índios chegou muito preocupado em sua casa. Era um homem valente, porém sabia que as armas dos não-índios são mortais. Este guerreiro conhecia a história dos Irã'a mrayre, um grupo de índios Mebêngokrê "que viajavam em terreno limpo", e pensou assim:

- Os Irã'a marayre ficaram em suas aldeias e esperaram os não-índios. Isto aconteceu um pouco antes do meu nascimento. Em pouco tempo, já não havia a aldeia dos Irã'a marayre e só homens brancos viviam naquele lugar. Os índios Irã'a marayre desapareceram. Não foram para outro lugar não, só deixaram de existir.

Não se sabe exatamente o que aconteceu, mas é provável que ao chegar em casa aquele índio tenha falado com sua esposa, filhas e genros: a aldeia decidira encontrar com os homens brancos mas ele não concordava e iria embora. Quem quisesse que viesse junto, e alguns dias depois um pequeno grupo de índios Mebêngokrê deixou a aldeia em direção ao norte. Por 50 e poucos anos não se ouviu mais falar deles.

Os Mebêngokrê que permaneceram na aldeia encontraram os homens brancos, entre eles os honrados irmãos Villas Bôas. Descobriram que os brancos são muito variados: pode-se confiar em alguns, porém outros têm duas bocas e suas palavras de nada valem. Os índios tiveram que lutar muito pelo local onde vivem e ainda o fazem. Um de seus líderes, Raoni - que era um jovem na época do encontro entre índios e não-índios, andou por lugares distantes e ensinou muito aos Mebêngokrê sobre o comportamento dos brancos.

Não se sabe exatamente o que aconteceu com os Mebêngokrê que deixaram a aldeia durante o tempo em que estiveram na mata. É provável que tenham fugido várias vezes durante este tempo. Do sul, com regularidade espantosa, os homens brancos destruíram grandes áreas de floresta onde soltaram bois e plantaram soja. Do norte, outros homens brancos simplesmente cortaram árvores e as carregaram ou então fizeram gigantescos buracos na terra, sem plantar nada. De repente os Mebêngokrê estavam cercados por homens brancos e não havia mais floresta onde pudessem se esconder. Em uma reunião semelhante àquela ocorrida há 50 anos, os índios isolados decidiram procurar ajuda e andaram por dias até a aldeia Capoto.

Não se sabe exatamente o que vai acontecer a partir de agora.

 

Para saber mais:
- A Marcha para o Oeste: a epopéia da expedição Xingu-Roncador; de Orlando e Cláudio Villas Bôas
- Os Mebengokre Kayapó: História e Mudança Social, capítulo escrito por Terence Turner para o livro "História dos Índios no Brasil", organizado por Manuela Carneiro da Cunha
- Mito e Vida dos Índios Caiapós; por Anton Lukesch

(*) "amre bé" é uma expressão que inicia quase todas as histórias contadas pelos índios Kayapó

cocar "men okó"; índios Kayapó

 

 

3. Índios Xetá

Era uma manhã, em dezembro de 1954. Na Fazenda Santa Rosa, noroeste do estado do Paraná, o administrador da propriedade preparava-se para mais um dia de trabalho. O mercado de café estava em alta e gerava grandes riquezas para o país. Cinco anos antes, esta região conhecida como Serra dos Dourados era isolada e coberta por uma floresta impenetrável, que foi cortada para se plantar café.

O jornal O Estado do Paraná publicou nesta época: "(...) trabalha-se, luta-se e mata-se por um punhado de terra que sirva para a plantação de cafezais. (...) a madeira não interessa, queima-se a floresta para facilitar os loteamentos..."

Aquela manhã parecia exatamente igual às outras. Só parecia. Seis homens nus saíram da floresta e entraram na fazenda. Eram índios Xetá. Não carregavam arco e flecha, o que demonstrava que vinham em paz. Naquele local, os Xetá estabeleceram o primeiro contato pacífico com os homens brancos.

Os primeiros não-índios que chegaram à área, alguns anos antes, já diziam que encontraram índios isolados. Mas os índios sempre se escondiam dos homens brancos. Um índio adulto chegou a ser capturado por agrimensores mas fugiu. Dois meninos indígenas também foram sequestrados na mesma época. Um deles era Tukanambá Xetá, que morreu em 2007.

Um ano após o contato, o governo e a Universidade Federal do Paraná organizaram uma expedição e encontraram alguns índios vivendo já próximos à Fazenda Santa Rosa. Das informações recolhidas nesta época, estima-se que havia 250 índios na região. Depoimentos dos Xetá sobreviventes indicam que seu povo era mais numeroso e vivia em pequenas aldeias, porém os conflitos forçaram os índios a abandonarem suas aldeias e permanecerem em movimento constante, fugindo dos brancos e em busca de alimento, e vivendo em moradias temporárias.

Nesta época, o dono da Fazenda Santa Rosa, que era deputado, propôs a criação de um Parque que servisse de morada para os índios Xetá.

Outras expedições foram organizadas nos anos seguintes. Em 1956 encontraram-se dois grupos vivendo nos fragmentos de floresta que permaneciam em pé. No fim do mesmo ano porém, Nhengo, um jovem índio de um destes grupos foi encontrado sozinho. Seu grupo havia sido massacrado por homens brancos armados.

Nos anos seguintes, aumentou a destruição da mata e das aldeias por queimadas dos homens brancos. Em 1961 já não havia mais florestas e as reservas de mata tornaram-se propriedades particulares. Finalmente em junho de 62, o periódico O Jornal publica: "Lavradores sem terras destroem impiedosamente os remanescentes da tribo Xetá no noroeste do estado. Consta que várias crianças foram sequestradas...".

Os índios que sobreviveram foram as várias crianças raptadas durante aqueles últimos 10 anos. Elas cresceram separadas, criadas por famílias de homens brancos ou em diferentes postos indígenas. As notícias sobre os Xetá publicadas desde então referem-se quase sempre à morte de algum destes sobreviventes.

Os seis índios Xetá que decidiram se aproximar dos homens brancos pela primeira vez, chamavam-se Iratxameway, Ajatukã, Kuein, Manhaai, o adulto Eirakã e o jovem Eirakã. O administrador da fazenda que os recebeu chamava-se Antônio.

bichinhos de cera, índios Xetá

bichinhos de cera, índios Xetá
(feitos para as crianças brincarem);
Coleção do Museu Paranaense

 

Para saber mais:
- visita ao Museu Paranaense, em Curitiba (acervo de peças Xetá e fotos das expedições de contato): http://www.pr.gov.br/museupr/antropologia/antropologia.shtml
- Quem são os Xetá; CD-Rom produzido pelo Museu Paranaense, Secretaria da Cultura do Paraná e CELEPAR (Companhia de Informática do Paraná)
- O Homem Índio Sobrevivente do Sul; por Silvio Coelho dos Santos

 
 
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