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Boletim de Histórias - número 28

Índice

1. Introdução: Flautas Indígenas
2. A Conquista da Flauta Jakuí, índios Kamayurá
3. A Origem da Flauta Dupla, índios Nambikwara
4. A Origem das Flautas Sagradas, índios Tukano Hausirõ Porã

5. Flautas Indígenas
6. Melodias Indígenas de Flautas-de-Pã
7. Atualizações no site

 

1. Introdução: Flautas Indígenas

Os índios Wakuénai contam que no início dos tempos havia um ser sobrenatural chamado Kuwai. Ele cantou e criou o mundo. Enquanto voava pelos céus ia fazendo todos os animais e plantas e nomeando-os de forma musical. Kuwai desceu à terra em um local próximo de onde hoje ficam as fronteiras entre Brasil, Venezuela e Colômbia, onde os Wakuénai ainda vivem. Neste local, Kuwai transformou-se em uma palmeira de cuja madeira foram feitas as flautas e trombetas sagradas dos índios Wakuénai.

 

As flautas foram um dos primeiros instrumentos musicais criados pelos homens. Os não-índios encontraram, em sítios arqueológicos, flautas esculpidas em ossos com 40.000 anos de idade. Já na história de povos indígenas de todo o mundo as flautas também estão presentes desde o tempo em que os deuses viviam na terra, e hoje são utilizadas em festas e em rituais.

Entre várias etnias da América do Sul encontra-se um sistema musical-mitológico baseado em instrumentos de sopro que são exclusivos dos homens e tabu para as mulheres. É curioso notar que estas flautas sagradas estão presentes em grupos indígenas de línguas e costumes muito diferentes, e separados entre si por milhares de quilômetros.

O etnólogo Stephen Hugh-Jones, em estudo sobre os índios Barasana do noroeste da Amazônia, defendeu que tais flautas sagradas seriam, para os homens, símbolos do amadurecimento e da demonstração de criatividade. Um contraponto em relação às mulheres, em quem estas características apresentam-se de forma mais clara: a primeira menstruação é um sinal claro do início do amadurecimento; e a concepção e educação das crianças é um sinal seguro da capacidade de criação e elaboração que possuem as mulheres.

Este boletim da Iandé mostra duas histórias sobre a origem destas flautas sagradas, uma dos índios Kamayurá do Alto rio Xingu e outra dos índios Tukano, do Alto Rio Negro. São dois povos que estão em extremos opostos da floresta amazônica mas narram estas histórias de maneira épica, grandiosa. Há também uma história, mais leve e bem-humorada, dos índios Nambikwara, de Rondônia, sobre a origem de uma de suas flautas.

 

Para saber mais:
- "Musicalizando o outro. Ironia ritual e resistência étnica Wakuénai", texto de Jonathan D. Hill, publicado no livro "
Pacificando o Branco", organizado por Bruce Albert e Alcida Rita Ramos
- Male initiation and cosmology among the Barasana indians of the Vaupés of Colombia, tese de doutorado (Cambridge, 1974)

 

 

2. A Conquista da Flauta Jakuí, pelos índios Kamayurá

Todos os dias Ianamá saía de sua aldeia para pescar no lago. Um dia, enquanto esperava os peixes ouviu o som da flauta dos espíritos Jakuí.

Ianamá gostou da música, mas não enxergava quem tocava, pois os Jakuí tocavam no fundo da água, onde moravam. À noite, de volta à aldeia, ele contou a seu avô Mavutsinim sobre o som das flautas, e o avô ensinou como pegá-las.

Ianamá fez uma rede grande, que demorou três dias para ficar pronta. Na madrugada seguinte partiu para o lago levando também charutos e uma panelinha com pimenta. Ela armou a rede na boca do lago e esperou.

Demorou dias para os Jakuí serem capturados. Em uma madrugada, ele viu a rede se mexendo e puxou as flautas Jakuí para dentro da canoa. Ele soprou fumaça sobre as flautas e disse a elas: "Vou levar vocês comigo. Não vou matar, não. Quero vocês pra mim". Depois derramou pimenta sobre as flautas e voltou para sua aldeia.

O avô Mavutsinim disse para o neto guardar as Jakuí de verdade e fazer outras iguais a elas. Uma Cutia ensinou a Ianamá qual a madeira de se fazer Jakuí, e ele fez muitas flautas. Deixou-as na aldeia e começou a tocar nas Jakuí verdadeiras. O Sol ouviu lá de onde morava e veio ouvir mais de perto. Chegando na aldeia, pediu as flautas para Ianamá, mas recebeu somente as cópias. Ianamá manteve as Jakuí verdadeiras consigo.

O Sol tocou nas flautas mas não gostou do som. Ele resolveu matar Ianamá para roubar suas flautas Jakuí. Convidou o índio para uma festa e lhe serviu veneno, porém Ianamá foi à festa acompanhado de abelhas que beberam todo o veneno sem passar mal. Outros índios se vestiram de rato e lagarto, bichos que entram em qualquer lugar, para entrar na casa onde estavam as mulheres do Sol e de Lua, e se deitaram com elas.

Sol e Lua ficaram muito bravos. Alguns dias depois eles foram com outros homens até a aldeia de Ianamá para uma festa, porém vestiram-se como piranha e como outros bichos bravos. Eles estavam querendo guerra. Mavutsinim, o avô de Ianamá, pediu para que não houvesse briga, mas vendo as roupas do pessoal do Sol, ele soprou para o lado deles um vento tão forte que os carregou de volta às suas aldeias.

Ianamá ficou com as flautas Jakuí, e disse: "Como é que o Sol pode me matar ? Ele não me mata, não. Ele é que devia ter achado o jakuí. Ele que é maior do que eu. Eu achei e é por isso que ele está bravo."

 

Para saber mais:
- Xingu: os Índios, seus Mitos; de Orlando e Cláudio Villas Bôas

 

 

3. A Origem da Flauta Dupla, índios Nambikwara

Os índios Nambikwara também possuem uma flauta reta, que é considerada sagrada e é tocada somente pelos homens.

Há porém várias outras flautas nas quais não há nenhum tabu, entre elas há uma pequena flauta dupla, semelhante a um apito.

O dono desta flauta, lá nos tempos antigos, era o Grilo. Ele tocava belas melodias até que um dia um Lobinho-do-Campo se aproximou para ouvir o som mais de perto.

O Grilo não gostou e sempre escondia sua flauta. Um dia o Lobinho surrupiou a flauta e fugiu.

O Grilo perseguiu o Lobinho até conseguir sua flauta de volta, porém ela se quebrou durante a perseguição. Desde então o Grilo não toca mais como antes, ele só entoa uma melodia triste: cri, cri, cri.... cri, cri.

 

Para saber mais:
- Hatisu Nambiquara: Lembranças que viraram histórias; de Anna Maria Ribeiro Fernandes Moreira da Costa

 

 

4. A Origem das Flautas Sagradas, índios Tukano Hausirõ Porã

No começo do mundo, todos os instrumentos musicais faziam parte do corpo de Bisiu, um ancestral dos índios Tukano. Quando Bisiu subiu para o Universo, levou os instrumentos e a terra ficou em silêncio.

Demorou muito tempo até que os índios encontrassem outros instrumentos musicais. Um dia, as filhas do líder da aldeia encontraram uma palmeira e pediram ao pai que cortasse um pedaço da árvore para elas usarem na cozinha.

O pai encontrou a palmeira e notou que ela era feita de pedra. Era uma árvore alta, que subia até o Universo. Ele percebeu que aquela árvore serviria para fabricar as flautas sagradas miriãporã.

Com a ajuda de um esquilo que cortou os galhos da árvore, o índio fez um conjunto de flautas de diversos tamanhos e as escondeu na beira do rio. Chegando em casa disse a seu filho caçula que fosse à noite até o rio, se purificasse e aprendesse a tocar as flautas.

Porém as filhas ouviram as instruções do pai.

À noite, aproveitando que o filho caçula dormiu demais, elas foram até o rio. As flautas tentaram fugir mas não conseguiram. As filhas tentaram tocar de qualquer jeito. Usaram a boca, o umbigo, os seios e até a vagina, mas não saiu som. A alma das flautas, que era o Uirapuru, saiu de dentro delas e foi embora. Por isso que hoje as flautas têm de ser sopradas, do contrário elas tocariam sozinhas.

Um peixe ensinou às índias como tocar as flautas. E as mulheres passaram a dominar o Universo.

As mulheres porém tocavam as flautas sagradas a qualquer hora, e não somente nas ocasiões especiais. Então os homens misturaram umas pimentas bem fortes e construíram outras flautas com elas. O som destas novas flautas era vibrante, forte como as pimentas. Os homens entraram no local onde as mulheres estavam festejando e tocaram as flautas apimentadas. Na mesma hora as mulheres caíram desmaiadas e os homens retomaram as flautas sagradas.

 

Para saber mais:
- Dahsea Hausirõ Porã ukushe wiophesase merã bueri turi: Mitologia sagradas dos Tukano Hausirõ Porã (Coleção Narradores Indígenas do Rio Negro, volume 5); por Ñahuri e Kumarõ

 

 

 

5. Flautas Indígenas


Flauta, índios Marubo, vale do Javari - Amazonas

 


Flauta, índios Baniwa, rio Içana - Amazonas

 


Flauta de Pã, índios Manoki (Iranxe), Mato Grosso

 


Flauta de osso, índios Wai Wai, rio Mapuera - Pará

 


Flauta, índios Guarani, aldeia Piaçaguera - São Paulo

 


Flauta de Pã, construída em jan/2005 por Geovani Kezo Haliti Paresi, índio Pareci, Mato Grosso

 

 

6. Melodias Indígenas para Flauta-de-Pã

O missionário salesiano Padre Eduardo Lagório registrou motivos musicais dos índios do Rio Uaupés, no noroeste do Amazonas. Nesta região vivem índios das etnias Tukano, Desana, Tariana, entre outras. A seguir estão algumas melodias tocadas em flautas-de-Pã, que foram publicadas no livro "A civilização indígena do Uaupés", de Alcionilio Brüzzi Alves da Silva.

 

 

 

7. Atualizações no site Iandé

A-) Foi acrescentado na lista de discos de Música Indígena, um CD gravado pelos índios Wapichana

 
 
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