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Boletim de Histórias - número 29

Índice

1. Introdução: Cerâmica Indígena do Parque do Xingu
2. Cerâmica dos Índios Waurá
3. Cerâmica dos Índios Yudjá
4. XIV Mostra de Cultura Indígena de Campinas


 

1. Introdução: Cerâmica Indígena do Parque do Xingu

A origem da cerâmica está relacionada com a origem da agricultura. No tempo em que os grupos humanos eram nômades e viviam apenas da caça e coleta, não havia a necessidade de inventar cerâmicas pesadas e quebradiças que atrapalhassem os deslocamentos em busca de comida. Quando os homens passaram a se fixar em um mesmo lugar, pela oferta de alimentos que suas plantações lhe garantiam, estavam criadas as condições para o desenvolvimento dos utensílios de cerâmica, úteis para preparar e armazenar a comida.

Esta relação pode ser conferida entre os índios brasileiros. Povos indígenas de tradição nômade - como os Xavante (MT), Nambikwara (RO) ou Kayapó (PA) - não utilizam cerâmica até hoje. Por outro lado alguns grupos indígenas do Brasil são especialistas na produção de utensílios de cerâmica. Destacam-se os índios Marubo do Amazonas, Asurini do Pará, Suruí de Rondônia e os Waurá do Parque do Xingu.

O Parque do Xingu fica no norte do Mato Grosso. É um local onde vivem 15 etnias indígenas diferentes. No sul do Parque moram os índios Waurá, especialistas na produção de cerâmica. Seus potes e panelas são cobiçados e imitados pelos demais índios desta área.

Na parte norte do Parque vivem os índios Yudjá, também chamados de Juruna pelos não-índios. Enquanto a cerâmica dos demais povos do Xingu é claramente influenciada pelos Waurá, tal fato não ocorre entre os Yudjá, que possuem técnica e estilo próprios na cerâmica que produzem.

Este boletim da Iandé traz algumas informações sobre a cerâmica dos Waurá e dos Yudjá e mostra fotos da exposição montada na cidade de Campinas, em São Paulo, sobre o mesmo assunto.

 

cerâmica em forma de animal - índios Yudjá cerâmica em forma de animal - índios Waurá

Cerâmicas em forma de animais: à esquerda - índios Yudjá; à direita - índios Waurá

 

 

2. Cerâmica dos Índios Waurá

A modelagem da cerâmica é uma atividade feminina entre os índios Waurá. Esta habilidade confere grande prestígio às mulheres Waurá, muito mais do que ocorre entre outras índias do Xingu. Por outro lado era frequente, até um passado recente, que as mulheres Waurá fossem raptadas por índios vizinhos por causa de sua técnica na cerâmica.

As meninas aprendem a fazer cerâmica ajudando as mulheres mais velhas nas partes mais simples do processo.

O barro utilizado é apanhado no rio Batovi quando as águas estão mais baixas. Os homens vão até lá de canoa, mergulham e apanham o barro. Na mitologia Waurá, uma grande cobra com cerâmicas presas em seu corpo deixou as peças neste lugar. Os índios precisam ter cuidado quando coletam o barro, pois acreditam que esta cobra ainda vive por lá e é perigosa.

De volta à aldeia o barro é guardado e usado com parcimônia; qualquer sobra é recolhida e aproveitada. Os Waurá adicionam ao barro um pó fino feito com esponjas de rio queimadas para facilitar a moldagem e a queima das peças.

As índias usam uma cabaça para comprimir uma pelota de barro de encontro à mão. Desta forma levantam, de forma grosseira, parte das paredes da peça e deixam-na secar. No dia seguinte, com o barro endurecido, levantam o resto das paredes aplicando roletes de barro sobre as partes secas. As Waurá utilizam só as mãos neste processo e deixam a peça secando novamente.

No dia seguinte raspam a peça com uma concha e acrescentam os apêndices, por exemplo, as cabeças e patas no caso de panelas em forma de animais. Em seguida, com as mãos molhadas, as índias esfregam toda a superfície da peça. Algumas horas depois lixam-na com a folha de um arbusto e alisam e abrilhantam as peças com um seixo. A modelagem, a parte mais difícil do processo, chega a seu fim.

As mulheres pintam o barro com a tinta do urucum e alisam a superfície novamente com um seixo. Este processo é repetido várias vezes até que o barro fique avermelhado. Deixa-se a peça secar bem ao sol. Depois, na queima são colocadas as cascas de uma árvore sobre as peças e tudo é coberto com cacos de cerâmica, formando uma pirâmide para concentrar o calor. Coloca-se fogo e quando as peças ficam incandescentes deixa-se as chamas se extinguirem e a cerâmica resfriar ao natural.

A decoração das peças é feita com uma tinta preta obtida a partir de um arbusto macerado. Os padrões gráficos utilizados pelos Waurá foram tirados da roupa de cobra que um jovem trançou. Este jovem era apaixonado por sua irmã e, envergonhado, transformou-se em uma cobra e deixou a aldeia.

 

As principais formas da cerâmica produzida pelos Waurá são:

- As panelas redondas com as bordas voltadas para fora, utilizadas na fabricação da farinha, para cozinhar pequi e milho, para armazenar água, e cozinhar o peixe com pimenta (figura abaixo)

 

- As cerâmicas zoomorfas, utilizadas para repartir a comida, como pratos, e para guardar pequenos frutos, milho torrado, gafanhotos e demais acepipes (figura abaixo)

 

- O pote "Nukaatsen", uma peça de bordas recortadas usada para ferver água nos rituais de furação de orelha (figura abaixo)

 

- O pote "Tsak-tsakwana", uma peça em forma de taça que produz um barulhinho de maracá quando sacudida, e que é muito apreciada pelos Waurá

 

 

As etnias desta região do Parque do Xingu promovem um encontro a que chamam Moitará, onde ocorrem trocas de mercadorias. Nesta ocasião os Waurá oferecem suas cerâmicas em troca de outros materiais que desejam.

 

Para saber mais:
- Os Índios Waurá - Observações Gerais: a Cerâmica; Boletim do Museu Nacional, escrito por Pedro E. de Lima
- Waurá: a selection of drawings by the Waurá indians of the Alto-Xingu Mato Grosso, Brazil; por Vera Penteado Coelho

 

 

 

3. Cerâmica dos índios Yudjá

Além dos índios Waurá, outras etnias do Parque do Xingu também produzem cerâmica, principalmente os Mehinaku, Yawalapiti e Suyá. As peças destes índios porém, são claramente inspiradas nas peças Waurá, isto devido a algumas gerações de casamentos entre mulheres Waurá com homens destes outros grupos.

Os índios Yudjá são uma exceção. Na cerâmica Yudjá predominam as formas globulares, bocas constritas e fundo arredondado. O grafismo Yudjá, de linhas arredondadas, também é completamente diferente do anguloso grafismo Waurá. Até poucas décadas atrás, as relações dos índios Yudjá com seus vizinhos foram hostis e isto impediu a fusão e influência de estilos de cerâmica e também de outros aspectos culturais.

A modelagem da cerâmica é também atividade feminina entre os Yudjá. As meninas começam a modelar bem cedo, por volta dos 5 anos, quando brincam de fazer peças imitando suas mães.

Os homens Yudjá coletam o barro durante a estação seca e o armazenam na aldeia. Nesta época também colhem a casca de uma árvore chamada caripé. As cascas são queimadas e adicionadas ao barro para facilitar a moldagem e a queima das peças (a mesma função que o pó de esponjas usado pelas índias Waurá).

As índias Yudjá fazem um rolo de barro e moldam as peças usando a técnica de enrolamento em espiral, ou seja, vão sobrepondo os roletes de barro formando as paredes da peça. Com uma cabaça, as mulheres alisam as paredes e bordas e colocam a peça para secar. No dia seguinte, com o barro ainda meio mole, as Yudjá raspam a peça com uma concha e acrescentam os apêndices de cerâmicas zoomorfas. A peça é colocada novamente para secar.

No dia seguinte as índias alisam a peça com um seixo e depois com palha de milho. Algumas horas depois, utilizando pedras como suporte, as peças são postas ao fogo e queimadas. Deixa-se o fogo apagar e a peça esfriar naturalmente.

A cerâmica é pintada com varetas finas e chumaços de algodão. A tinta vermelha característica das peças Yudjá é obtida com a infusão das cascas de uma árvore ou com a mistura de sementes de algodão com a terra vermelha dos barrancos do rio Xingu. A tinta preta vem da mistura de sementes de algodão com folhas maceradas e carvão; já para fazer a tinta branca usa-se o mesmo processo substituindo o carvão por uma argila branca.


prato Yudjá decorado com grafismos

As cerâmicas Yudjá, além de usadas na preparação de alimentos, são utilizadas na fabricação do cauim, uma bebida fermentada produzida principalmente da mandioca, que é especialidade dos índios Yudjá e fundamental para alguns de seus ritos e festas.

 

Para saber mais:
- A Cerâmica dos Índios Juruna (Rio Xingu); Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, por Adélia Engrácia de Oliveira e Eduardo Galvão
- Um Peixe olhou pra mim, de Tânia Stolze Lima

 

 

 

4. XIV Mostra da Cultura Indígena de Campinas

A Mostra da Cultura Indígena, que acontece anualmente em Campinas graças ao esforço dos curadores Rubem Pereira de Ávila e Joselene de Souza Pinto, tem a cerâmica produzida no Parque Indígena do Xingu como tema deste ano. Estão reunidas trinta peças produzidas pelos índios Waurá, Yudjá e Mehinaku, provenientes de coleções particulares. A seguir estão algumas fotos da exposição:

XIV Mostra  da Cultura Indígena de Campinas

XIV Mostra da Cultura Indígena de Campinas


panela, índios Waurá


pote, índios Yudjá


pote, índios Waurá


cerâmica zoomorfa sobre suporte de panela, índios Mehinaku


panela em forma de anta, índios Waurá


panela zoomorfa, índios Yudjá


panela, índios Waurá


panela, índios Yudjá


torrador para fazer beiju (beijuzeira), índios Waurá


cumbuca, índios Yudjá


panela em forma de morcego, índios Mehinaku


panela em forma de tartaruga, índios Waurá


pote, índios Yudjá


panela cerimonial, índios Waurá


cartaz da XIV Mostra da Cultura Indígena,
foto de Serge Guiraud - Jabiru Prod

 

 

XIV Mostra da Cultura Indígena de Campinas
local: Centro de Convivência
endereço: Praça Imprensa Fluminense s/nº
horário: diariamente das 9:00 às 18:00 horas
data: 14/abril a 16/maio/2008

 
 
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