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Boletim de Histórias - número 30

Índice

1. Introdução: Máscaras Indígenas
2. Máscara Tamokó, índios Wayana-Apalay
3. Máscara Mariwin, índios Matis
4. Máscara Kokrit, índios Krahò e Kanela


 

1. Introdução: Máscaras Indígenas

É antigo o uso de máscaras entre os índios do Brasil. No século XVI, europeus que vieram ao país como Hans Staden e Francisco de Orellana, já mencionaram rituais em que os índios usavam máscaras. As máscaras são produzidas dos mais diversos materiais: palha, madeira, penas, cerâmica, etc...

As máscaras não devem ser interpretadas como objetos isolados, elas representam forças prenaturais e estão sempre relacionadas a rituais onde há também cantos, dança e história. Com seu simbolismo, as máscaras aproximam estas forças sobrenaturais ao indivíduo e materializam todos os códigos inscritos nos rituais e mitos, facilitando a leitura que cada um dos índios fará destes códigos.

Um aspecto recorrente nas mitologias indígenas é que em um passado distante aconteceram conflitos entre as entidades representadas pelas máscaras e os índios, porém no presente os índios preparam festas que servem para "alegrar" e controlar estas entidades. Assim os índios superam os confrontos passados, e influenciam as forças sobrenaturais em favor de seus interesses.

Este boletim da Iandé traz histórias relacionadas a três máscaras indígenas: a Tamokó dos índios Wayana-Apalay; a Mariwin dos índios Matis e a Kokrit, dos índios Krahò e Kanela.

 

Para saber mais:
- Máscara. Objetos rituais do alto rio Negro; por William Murray Vincent; publicado no livro Suma Etnológica Brasileira vol. 3
- Revista de Atualidade Indígena ano 1 vol.4; publicação da FUNAI de mai/jun 1977
- A via das máscaras; por Claude Lévi-Strauss

 

 

2. Máscara Tamokó, índios Wayana-Apalay

máscaras do sobrenatural tamokó, índios wayana-apalay
Máscaras do sobrenatural "Tamokó", índios Wayana-Apalay (Pará)

Os índios Wayana-Apalay vivem no norte do Pará, na região de fronteiras entre Brasil, Suriname e Guiana Francesa. Eles contam que antigamente as malocas indígenas eram grandes e abrigavam muitas pessoas. O piso da maloca era construído bem alto, sobre palafitas, para que todos ficassem protegidos contra animais e outros inimigos, mas mesmo assim os índios sentiam medo.

Um dia os índios Wayana saíram para caçar e se esconderam esperando a caça. Aí apareceram os Tamokós. Eram muitos, pareciam gente e comiam frutinhas do mato. Os índios fugiram para a aldeia e contaram a todos o que viram. No dia seguinte mais índios voltaram à mata e de novo viram os Tamokós, que desta vez estavam enfeitados, comendo suas frutinhas.

Um dos caçadores flechou o menor dos Tamokós e os outros fugiram. Então um dos Tamokós viu os índios, voltou, comeu um deles, começou a cantar e foi embora.

Os Wayana fugiram para a aldeia e combinaram de fazer as pazes com os Tamokós. Um pouco depois um dos Tamokós veio até a aldeia e disse que se fossem amansados não deixariam nada de mau acontecer à aldeia, mas que se fossem flechados de novo iriam destruir todas as malocas. Então um pajé cantou e os Tamokós e os Wayana ficaram amigos.

A partir de então, antes da construção de uma nova casa, era realizada a Festa da Cumeeira, onde os Wayana vestiam-se como os Tamokós e cantavam e dançavam.

O rosto da máscara Tamokó é feito com fibras de arumã cobertas de cera de abelha e pintado de barro branco e a tinta de uma pedra vermelha. O corpo é feito de fibras das cascas da árvore atê e em alguns casos decorado com fios de algodão.

 

máscaras do sobrenatural tamokó, índios wayana-apalay
Máscaras do sobrenatural "Tamokó", índios Wayana-Apalay (Pará)

 

 

Para saber mais:
- Mito Tamokó (versão colhida por João Aranha - índio Wayana-Apalay); publicado na revista Atualidade Indígena da FUNAI, em abr/1982
- Tykahsamo; publicação da Associação dos Povos Indígenas do Tumucumaque
- Ponte entre Povos; organizado por Marlui Miranda

 

 

 

3. Máscara Mariwin, índios Matis

máscara mariwin, índios Matis
Máscara do espírito ancestral "Mariwin", índios Matis (Amazonas)

Os índios Matis vivem na região do vale do Javari, no sudoeste do estado do Amazonas. Os espíritos ancestrais destes índios são chamados "Mariwin".

Os Mariwin representam o mais alto modelo estético e moral para os índios Matis. Vivem em roças de palmeiras que crescem sobre antigas aldeias. Eles não falam, comunicam-se por mímica e por sons guturais, mesmo assim os índios sabem que a conversa preferida dos Mariwin é sobre a caça com zarabatana.

Esses espíritos usam ornamentos extraordinários, inclusive "piercings" como os Matis, porém encaixados nos ossos e não somente na pele. Os índios Matis furam a pele das bochechas onde usam duas pequenas varetas, o lábio inferior onde usam um pequeno botoque e fincam no nariz dezenas de pequenas agulhas feitas da casca de uma palmeira.

Os Mariwin aparecem na aldeia dos índios Matis caminhando agachados e carregando feixes de varas de palmeiras. Usam uma máscara de cerâmica cobrindo o rosto e o corpo coberto de lama e folhas. Os Mariwin vêm para bater nas crianças com as varinhas. Acredita-se que isso afasta a preguiça e faz com que as crianças cresçam fortes e rápidas. As crianças menores não apanham, os Mariwin apenas lhes tocam os pés com a varinha estimulando-as a andar. As mulheres grávidas também tomam algumas "varadas".

O movimento que os Mariwin fazem com as varinhas é mais semelhante a uma "estocada" do que uma "chicotada", mais próximo ao movimento feito nas tatuagens rituais e furação do rosto para colocação dos "piercings". Além disso cada vara serve apenas para um único golpe em cada índio. Quando o feixe de varas se acaba, o Mariwin se afasta caminhando de costas e agachado. Ele sempre aparece nos rituais de tatuagem.

Entre os índios do Brasil, só os Matis fazem máscaras em cerâmica. O antropólogo Philippe Erikson aponta uma relação entre este fato e o veneno curare, usado nos dardos para caça com zarabatana. Os Matis valorizam muito a zarabatana, e o curare guardado em potes de cerâmica é mais poderoso do que aquele guardado em estojos de bambu.

 

máscaras mariwin, índios Matis
Máscaras "Mariwin", índios Matis (Amazonas)

 

 

Para saber mais:
- Pères Fouettards en Amazonie. Bats-moi, mais Tout Doucement; por Philippe Erikson; publicado em L'Univers du Vivant, 1987, nº20
- Enigmas do corpo e soluções dos Panos; por Julio Cezar Melatti, disponível no endereço http://www.geocities.com/juliomelatti/mitos/m-enigma.htm

 

 

 

4. Máscara Kokrit, índios Krahò e Kanela

máscaras kokrti, índios Timbira
Máscaras do sobrenatural Kokrit: à direita - índios Kanela / à esquerda - índios Krahò


Os índios Krahò vivem no norte do estado do Tocantins e os índios Kanela no sul do estado do Maranhão. Estas duas etnias indígenas possuem língua e costumes bastante semelhantes.

Estes índios realizam uma festa para os espíritos Kokrit, um ente descrito como um artrópode sobrenatural que vive dentro do rio Tocantins. As máscaras que representam o Kokrit são bem grandes, cobrindo todo o corpo do índio que a veste. Consiste em duas esteiras trançadas com a palha do buriti, com longas franjas que descem até o chão e dois chifres de madeira. As máscaras são decoradas com diferentes pinturas, cada uma representando um personagem diferente que há dentro da sociedade dos Kokrit.

Os homens fazem estas máscaras fora da aldeia e chegam dançando em passos curtinho balançando as franjas das máscaras. Os Kokrit não falam, apenas assobiam ou cantam com um voz bem fininha, pedindo comida às mulheres. As mulheres pedem para que os mascarados dancem e uma coreografia bastante cômica é apresentada.

Os índios Krahò contam que antigamente dois rapazes passeavam na beira do rio e encontraram filhotes de Kokrit na praia. Eles levaram os filhotes para a aldeia, para criá-los como animais de estimação, porém os Kokrit adultos queriam resgatar seus filhos e seguiram o rastro dos índios até a aldeia. Quando os Kokrit entraram na aldeia Krahò espalharam um cheiro ruim pelas casas que provocou uma terrível epidemia que matou muitos índios. Os Kokrit pegaram seus filhotes e voltaram para o rio.

Os índios Kanela contam uma história um pouco diferente: um velho índio esqueceu seu arco de caça na beira do rio e chegando lá foi atacado por vários Kokrit. Os bichos já iam chifrar o índio quando apareceu Kenpéy, o chefe dos Kokrit, que impediu que os outros machucassem o homem. Kenpéy levou o velho índio Kanela para a aldeia dos Kokrit e ensinou-lhe as cerimônias que os monstros praticavam. Quando o velho índio voltou à sua aldeia, ensinou as danças para os outros e ordenou que eles se vestissem exatamente como faziam os Kokrit.

 

Festa dos Kokrit, índios Kanela
Festa dos Kokrit, índios Kanela (foto da Revista de Atualidade Indígena vol.4 de mai/jun 1977)

 

 

Para saber mais:
- Revista de Atualidade Indígena ano 1 vol.4; publicação da FUNAI de mai/jun 1977
- Wu'tu: O grande ritual Krikati; por Maria Mirtes dos Santos Barros - publicado no livro Rituais Indígenas Brasileiros
- Rastros do espírito: fragmentos para a leitura de algumas fotografias dos Ramkokamekrá por Curt Nimuendaju; artigo de Francisco Simões Paes, publicado na Revista de Antropologia vol.47, 2004;
disponível no endereço http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-77012004000100008&script=sci_arttext#nt26

 
 
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