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Batismo: um projeto de vida
(artigo de Claudio Bombieri,
publicado no site da Associação Carlo Ubbiali: www.asscarloubbiali.com.br)

Na pequena capela mais de 25 crianças sentadas no colo de pais ou padrinhos estavam a esperar o momento do batismo. Pareciam como que enjauladas naquelas roupinhas brancas e limpas, mas incômodas, num calor quase infernal. Muitas delas, já davam sinais de irritação e nervosismo, chorando e esperneando. Era a festa do padroeiro da pequena comunidade católica de Agricolândia, no interior do Estado do Maranhão, Brasil, a 480 Km de São Luís, a capital.

Naquela manhã, coincidentemente, haviam chegado bem no início da liturgia batismal, quatro índios Ka´apor que moravam na aldeia Maracaçumezinho, bem próxima daí, na área indígena Alto Turiaçu. Eles sabiam que eu estava lá e queriam conversar comigo. Como espectadores atentos, os quatros indígenas observavam tudo. Era a primeira vez que assistiam a um batizado católico e ministrado por mim. Terminada a celebração e despachado todo o mundo, os índios se aproximaram e começaram a investigar...

Foi o batismo dos cristãos que você fez ?”, perguntou-me, imediatamente, Xa´i, o mais velho dos quatro. Respondi afirmativamente. “Muito estranho, não é ?”, - retrucou ele. “Por quê ?” perguntei-lhe. Xa´i me respondeu:” Aposto que ninguém dos presentes vai poder chamar aquelas crianças pelo nome. Ninguém conseguiu decorar o nome porque eram muitas crianças e os padrinhos não gritaram os nomes dos seus afiliados para que todo o mundo pudesse ouvir. Pior, alguns padrinhos tiveram que perguntar aos pais qual era nome do seu afiliado, pois nem eles mesmos sabiam, ou já o haviam esquecido. Além disso, dos poucos nomes que eu consegui ouvir, nenhum deles fazia sentido... José, Antônio, Marcos, significam o quê? Por estes nomes, ninguém vai saber como aquela criança será educada, qual será o seu projeto de vida, a quem ele deverá se parecer, quais virtudes e qualidades deverá possuir para ser membro efetivo do grupo.
Entre nós Ka´apor, diferentemente dos cristãos, no nosso batismo, quem pensa e dá o nome da criança é o padrinho. Ele passa a noite toda, anterior ao batismo, segregado numa casa, juntamente com o seu afiliado. Ele fica a olhar o tempo todo para o afiliado e pensa muito. Ele pensa no futuro daquela criança, de como deverá ser educada. Depois, ele pensa num pássaro, numa flor, numa planta ou num bicho da mata que melhor represente o que a criança deverá ser. Se o padrinho achar que o seu afiliado deverá ser uma pessoa alegre, comunicativa, ágil e inteligente dará um determinado nome. Se achar que deverá ser criado forte, resistente, lutador, dará um outro nome. No nome está contido o projeto de vida, é a sua carteira de identidade. Todos na aldeia devem saber disso para ajudar e cobrar a realização deste projeto.

Fiquei pasme diante daquelas observações e eu, que já tinha participado de algumas celebrações do batismo Ka´apor, imediatamente confirmei e concordei com tudo o que Xa´i dissera.

Lembrava-me da minha primeira vez que participei de um batizado Ka´apor, na aldeia Gurupiúna. Foram 3 dias de preparativos. As mulheres a moer e a despejar o caju em grandes potes de barro para preparar o Kawí, ( espécie de vinho de caju) e os homens a defumar grandes pedaços de anta e veado. Inúmeras famílias de outras aldeias próximas, convidadas para a festa, iam chegando e encontrando hospedagem nas casas de um ou de outro. Lembrava-me, especialmente, quando na manhã do batismo, antes do raiar do sol, o padrinho saiu da casa onde passara a noite com o pequeno afiliado pensando no nome que iria proclamar. Trajado a rigor, com cocar, colar e pulseiras de plumas, segurando a criança em suas mãos, o padrinho avançava, solenemente, dentre os presentes que, de braços dados, já o esperavam no pátio, dançando ao ritmo do maracá. O dia começava a clarear. Os primeiros raios de sol se espalhavam primeiro pela mata próxima e, enfim, pelo pátio. Chegara a hora. O silêncio era grande. O padrinho e os presentes viraram-se, sincronicamente, rumo ao sol; o sol que faz crescer a vida e dissipa as trevas do medo e da angústia. Improvisamente, o padrinho levantou a criança a esticar completamente seus braços e gritou o nome. Uma explosão de gritos lhe fez eco. Depois, o padrinho repetiu por mais duas vezes o nome da criança, sempre seguido pelos gritos de alegria dos presentes. Mais um Ka´apor, naquele momento, começara a partilhar os destinos do seu povo, apoiado, orientado e protegido por ele.

Xa´i e seus companheiros Ka´apor, depois de uma demorada conversa, retornaram a suas aldeias, mas eu não pude evitar fazer uma comparação entre as duas formas de celebrar o batismo e, principalmente, refletir sobre o sentido que lhe era atribuído pelas duas partes, pelos Ka´apor e pelos católicos de Agricolândia. Percebi que o que estava em jogo não era simplesmente a forma de celebrar um rito. Não era uma questão de liturgias mais ou menos participativas, criativas ou dinâmicas. Tratava-se, sobretudo, de uma questão de sentidos, de projetos de vida, de valores, de decisões e escolhas comunitárias. Pude constatar, posteriormente, que o batismo dos Ka´apor, diferentemente do batismo vivenciado pelas comunidades cristãs da região, não é um rito desligado do conjunto de práticas educativas daquele povo. O batismo Ka´apor se insere, de forma coerente, como uma das inúmeras e significativas ações que visam o fortalecimento da identidade específica deste povo. Tudo deve ser orientado para um horizonte comum. O batismo Ka´apor é uma expressão significativa da tentativa de construção coletiva deste horizonte comum, alicerçado em práticas e valores bem definidos. Mais ainda, o batismo Ka´apor tenta interligar a subjetividade, através da valorização do simbolismo do nome, com a dimensão coletiva, mediante a aceitação, a confirmação e a solidariedade do grupo. É nisso que o batismo se manifesta como “sacramento” de pertença a um grupo-comunidade: na assunção pessoal e coletiva de valores que permitam manter e fortalecer uma sociedade-comunidade solidária, inibidora de formas de exploração e acumulação de bens e privilégios. O batismo, dessa forma, deixa de ser um mero rito, formal e desvinculado da vida, e se torna ação pedagógica que insere a pessoa num projeto de sociedade com uma identidade cultural bem específica.

Os Ka´apor, ao longo destes 20 anos de diálogo, colaboração e convivência entre eles, diferentemente de outros grupos indígenas, nunca me pediram que celebrasse o batismo cristão entre eles. Talvez, por terem percebido a consistência simbólica e pedagógica de seu próprio batismo em relação ao dos cristãos. Talvez, por eles entenderem que eu mesmo era o maior incentivador para que eles permanecessem fiéis a suas práticas que eu considero profundamente evangélicas. Talvez, enfim, por eles entenderem que na sociedade globalizada e massificada dos “ Karaiw” (não índios), é preciso manter espaços de humanidade onde a pessoa é valorizada e respeitada em sua plenitude e, principalmente, onde o seu nome/identidade não corresponde a um número, a um código de barras ou a um conjunto de letrinhas, mas a um projeto de vida.

(Claudio Bombieri é padre, comboniano, que convive com os povos indígenas do Maranhão desde 1983).
Esse texto está publicado no site da Associação Carlo Ubbiali, no endereço: http://www.asscarloubbiali.com.br/download/artigos/html/batismo%20Ka%E1por.htm )

 

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